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quarta-feira, 12 de março de 2014

Intolerância religiosa



Carlos Miraglia 

No dia 11/03/2014 encontramos a seguinte notícia veiculada em várias mídias pelo Brasil: "Vereador de Antônio Prado pede demissão de servidora por ela ser ateia. Alex Dotti (PMDB) subiu à tribuna na sessão de 4 de fevereiro e pediu a exoneração da assessora de imprensa."


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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Os sapos te convidam (Desafio Plantinga IV)

Amanhã, terça, dia 30 de agosto de 2011, Alvin Plantinga apresentará seu famoso argumento teísta ao vivo em Porto Alegre. Quem quiser vir, será no auditório do Prédio 05 da PUCRS, às 14h, seguido de debate com três convidados, entre eles o admirável filósofo português Desidério Murcho (dêem uma espiada na sua bibliografia), frequentemente citado neste blogue.

Bem, já se passaram três meses desde que lançamos o "desafio Plantinga", com o seu famoso argumento de que naturalismo (filosoficamente definido) e evolução (cientificamente embasada) são mutuamente contraditórios, logo a abordagem dos neoateus não se sustentaria. O original em inglês do texto debatido está aqui, mas leia também este aqui. Tivemos muita discussão aqui (Desafio I, II e III) e em várias listas nas quais participamos, e o debate chegou a propagar-se a outros blogs, se bem que não fomos nós os primeiros a comentar esse assunto.

O argumento de Plantinga tem repercutido na comunidade filosófica há um bom tempo, mesmo desde formulações anteriores apresentadas por ele, e muitos autores tentaram respondê-lo, com variado grau de sucesso. Esse debate, aliás, já rendeu vários simpósios e livros, como por exemplo, Science and Religion: Are They Compatible? (transcrição do debate entre Plantinga e Dennett) e Naturalism defeated? editado por James Beilby.

Prometemos aqui uma resposta que contemplasse a "provocação" feita, porém, sempre que começávamos a redigi-la, ficava grande ou dispersiva demais, fugindo ao ponto. Mas promessa é dívida!

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terça-feira, 14 de junho de 2011

Mas cadê os neoateus progressistas?

Eis aqui outra boa polêmica que pretendia levantar há tempos, por que é algo que sempre me chamou muito a atenção.

Porque é que os principais neoateus - falo dos populares "4 cavaleiros" - são geralmente tão reacionários politicamente? Será o conservadorismo político ou mesmo um belicismo desbragado uma propriedade inerente do... ateísmo? Gostamos de ler, por exemplo, Christopher Hitchens argumentando contra o fundamentalismo religioso, mas e quando ele começa a defender aberta (e entusiasticamente) a guerra total contra o Islamismo?

Incômodo, não? Cabe a nós, destrinchar esse enigma e separar o joio do trigo. E, quem sabe, até avaliar quanto dessa mentalidade percola a própria comunidade cética.

O artigo de Jeff Sparrow é do excelente New Matilda.
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domingo, 29 de maio de 2011

Maldito Plantinga! (segue o desafio)


 
Após o desafio de algumas semanas atrás, várias tentativas de resposta foram apresentadas, inclusive links para ótimas coletâneas delas. Mas ainda não apareceu nenhuma resposta definitiva e arrasadora. Mesmo assim, é bom ver que estão tentando. Algumas respostas estão circulando apenas em listas de discussão, portanto não poderemos comentá-las aqui (mas estão em tempo de postá-las!). Mas algumas tendências já se observam, que considero útil apontar. Nosso colaborador Carlos Alberto Miraglia, professor de Filosofia da UFPEL leu várias das respostas e contribuiu com o texto que se segue.


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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Evolução versus naturalismo: um desafio lógico aos ateus?

O "Crocopato", o argumento final ?

O crocopato é só uma brincadeira para criar o clima irreligioso adequado... Mas nem tudo são rosas para a comunidade cética no que tange à qualidade das argumentações utilizadas. Há algum tempo atrás postei comentários acerca das fraquezas e inadequações nos argumentos de alguns dos paladinos do neoateísmo (claro que há exceções), e cheguei a chamá-los de "ateus incultos" por simplesmente desconhecerem séculos de argumentações agnósticas, atéias, antiteístas ou basicamente apateístas pré-existentes em que o credo irracional era combatido antes com a lógica que com a retórica ou mesmo a empiria. Talvez a melhor forma de ressaltar isso seja um EXERCÍCIO COLETIVO de análise e discussão com ênfase na estrutura lógica dos argumentos: trago, então, um desafio que anda recentemente atormentando alguns círculos céticos (apesar de não ser novo), um artigo do filósofo analítico (e cristão) Alvin Plantinga, muito bem traduzido por Daniel Brisolara para o blogue cristão Apologia (existe também um blogue calvinista dedicado ao filósofo). Valeu, Luiz, pela dica!

Quem se habilita a dissecar e desarticular o aparente cheque-mate lógico que Plantinga aplica nos infiéis?

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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Nossa mensagem de fim de ano!

(fonte: Pharyngula)


Que em 2011 possamos entregar
nossas contribuições sempre traduzidas!


(gostou de Ambrose Bierce? Pois é nosso colunista há anos!
procure-o rolando até o fim desta página...)






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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Está provado!



Se o vídeo não executar tente aqui.
(legendas em espanhol, lamento)

Aproveitem e cantem junto com este outro vídeo aqui...
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Chegará o neoateísmo inculto ao nível de um "ateísmo de sistema"?



Basta ser ateu ou é preciso algo mais? A recente onda de livros ateus (Dawkins, Dennet, Hitchens e Harris) e a superexposição dos autoproclamados "quatro cavaleiros do apocalipse" pode acabar encobrindo a existência de consistentes argumentos lógicos e filosóficos, alguns já bastante antigos, e que negam o próprio CONCEITO de deus, colocando-nos um passo antes da preocupação em ter de "provar" algo.


No artigo "Deus não existe: sem a menor dúvida, Sr. Dawkins", John Brown aborda a fraqueza inerente do tipo de argumentação que esses polemistas anglosaxões utilizam, centrado numa análise eminentemente epistemológica (escassez de provas empíricas) e desconhecendo (na maioria dos casos) a tradição de análise lógica e mesmo ontológica que também tem muito a dizer sobre a "hipótese deus": ela não seria apenas "muito pouco provável" (o que ainda a deixa "provável"...), mas sua formulação seria mesmo inconsistente, ou seja, seria uma falácia lógica:


"[cuando dice] Dawkins que « Si se acepta lo argumentado en este capítulo, la premisa fáctica de la religión -la Hipótesis de Dios- resulta insostenible. Dios, casi con toda certeza, no existe». El problema es que lo insostenible sólo desde un punto de vista epistemológico, no lo es desde un punto de vista ontológico ni práctico. Aunque, para cualquier biólogo serio, la hipótesis inmanentista darwiniana arruine definitivamente el creacionismo como hipótesis que oriente los trabajos de su disciplina, sigue existiendo -pues de probabilidades se trata-, la posibilidad muy poco probable de que Dios exista. Basta esta pequeña probabilidad para que la religión y, como decía Marx, « die ganze alte Scheisse », toda la vieja mierda del temor y el temblor, de la culpa y el pecado regresen y amarguen la vida a los mortales."

E Brown prossegue:

"Para deshacerse del temor de Dios no se puede prescindir de una crítica de este supuesto « concepto ». No se trata de afirmar con Russell y Dawkins que no hay bastantes pruebas, sino de decir con Spinoza que el concepto religioso de la divinidad no es consistente. Se trata, en otros términos de reivindicar lo que llamaba Bayle, el « ateismo de sistema » de Spinoza."

Claro que é válida a tentativa de reeditar a crítica aos teísmos e credos com base no imenso acúmulo e na refinada metodologia da ciência (e eu sou dos que se divertem muito lendo esses textos-bravata todos!), mas ficar apenas nesses autores pode levar a uma visão deformada do debate acerca da existência de deus, um dos mais antigos passatempos da humanidade (recordemo-nos, por exemplo, do musical de Mel Brooks em "A História do Mundo, parte 1"...).

Piadas à parte, recomendo a leitura do artigo de Brown (está em espanhol) para um resgate de abordagens como a de Baruch Spinoza (acreditem, ele também era "bento"):

El dispositivo de la Etica consiste no en negar la plausibilidad de la hipótesis de un Dios transcedente como explicación del orden del universo, ni siquiera en negar la existencia de Dios, sino en producir la implosión del concepto de Dios afirmando a la vez que Dios es substancia y es infinito. El Dios sustancia infinita no puede ser el rector del universo, pues no se distingue realmente de éste."

Brown também resgata o esquecido enfoque ateu de Sigmund Freud, que merece sempre ser revisitado:

"tales ideas, que nos son presentadas como dogmas, no son precipitadas de la experiencia ni conclusiones del pensamiento: son ilusiones, realizaciones de los deseos más antiguos, intensos y apremiantes de la Humanidad. El secreto de su fuerza está en la fuerza de estos deseos."

Embora tais abordagens estejam "pairando" nos textos de Dawkins e Hitchens, por exemplo, elas parecem nunca receber a devida atenção, em parte por desconhecimento do assunto, o que é uma pena, pois se perde uma excelente oportunidade de difundir tais idéias. Claro que esses livros têm imenso valor e abordam outras questões de maneira exemplar, por exemplo, os aspectos psicoafetivos de assumir-se ateu diante das pressões sociais e culturais de sua sociedade (ainda que num enfoque por vezes ingênuo).

Essa tendência de abordar um assunto com pretensões à totalidade, mas sem relevar - seja por desconhecimento, seja por oportunismo - as contribuições anteriores dando-lhes o devido crédito, é o que chamo de "neoateísmo inculto". É uma tendência comum nestes tempos de cultura de massas, quando a vaidade "pop" de alguns (claro que não são todos) leva-os a escrever como se tivessem sido os primeiros a abordar o assunto...

Neste sentido, vejo um irônico paralelo entre uma releitura spinoziana desse neoateísmo pop e a crítica devastadora que Rudolph Carnap, um dos fundadores do Círculo de Viena, fez à metafísica de Heidegger em seu clássico "A eliminação da metefísica pela análise lógica da linguagem" (1957): neste último, demoliu-se o edifício verborréico da chamada "metafísica" pela análise do discurso em termos meramente lógicos; em nosso caso, vemos que uma crítica pretensamente demolidora da concepção teísta corre o risco de deixar brechas imensas exatamente por ignorar abordagens pretéritas que... ressaltam a análise lógica do discurso!

São algumas reflexões para a comunidade atéia considerar.

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Ônibus ateu pelo mundo. E no Brasil?

Primeiro foi Londres em 2008, com uma mensagem cientificamente correta, mas com margem à contra-argumentos ("Deus provavelmente não existe. Pare de se preocupar e aproveite a vida").


Depois se seguiram campanhas em Barcelona (em espanhol e catalão!), com o mesmo texto, e em Washington, mas com um texto, digamos, mais politicamente correto, sem afirmações fortes. A mais recente campanha acontecerá em Gênova (Itália) em fevereiro (e outras várias estão sendo organizadas).


O texto agora é mais forte, mas creio que mais efetivo também ("A má notícia é que Deus não existe. A boa é que você não precisa dele").

E no Brasil? A recém fundada ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos) também está promovendo algo similar aqui no Brasil, mas a forma do texto ainda não foi decidida. A questão, porém, é outra. Há uma enorme diferença entre o Brasil e os países europeus. O mapa abaixo mostra o resultado de uma pesquisa da Eurobarometer em 2005 incluindo seguinte afirmação "Eu não acredito que haja algum tipo de espírito, Deus ou força vital":


Há os países tradicionalmente católicos, como Itália, Polônia, Portugal, Irlanda, etc. Mas há também números incrivelmente altos, como na França. Não conheço resultados semelhantes para o Brasil, mas na página da ATEA encontramos:
Por exemplo, para medir índices de rejeição, há décadas o instituto Gallup vem perguntando aos norte-americanos se eles votariam para presidente em um indivíduo no geral bem qualificado e indicado pelo partido de sua preferência, caso ele fosse judeu, negro, mulher, etc. Os ateus têm hoje o maior índice de de rejeição (53% não votariam em um ateu), bem à frente do segundo colocado (43% não votariam em um homossexual). A revista Veja encomendou uma pesquisa ao CNT/Sensus e descobriu que 84% dos brasileiros votariam em um negro para presidente da República, 57% dariam o voto a uma mulher, 32% aceitariam votar em um homossexual, mas apenas 13% votariam em um candidato ateu.
Embora eu seja simpático à uma campanha de esclarecimento da opinião pública de que nós ateus não somos monstros e que podemos ter altos padrões éticos e morais, a reação esperada frente à uma campanha nos ônibus nos moldes ingleses será esta aqui abaixo. Mas talvez sirva para explicitar um pouco a intolerância que a pesquisa acima quantificou e trazer à discussão esse assunto, que normalmente é considerado tabu. Mas não neste blog.

ATUALIZAÇÃO (17.1.09):

Depois do motorista inglês que se recusou a dirigir um "ônibus ateu" em Londres, por se sentir ofendido (aqui e aqui), o sindicato dos motoristas de ônibus de Gênova está alegando objeção de consciênciacontra a campanha. Nesses casos, felizmente, o efeito é positivo e pode atrair mais atenção do que a mensagem nos ônibus. A censura, em um país fortemente influenciado pelo Vaticano, era esperada.

Já a ameaçadora mensagem abaixo, não gera protestos:


ATUALIZAÇÃO (02.02.2009): se você não gostar do(s) slogan(s) escolhido(s), crie o seu próprio com o Bus Slogan Generator.

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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Onde vai parar a separação Igreja-Estado?

Um dos pilares do sistema Republicano é a laicidade do Estado. Na Constituição Brasileira de 1988 isto está assegurado no Art. 19:

É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;


Pois nosso presidente acaba de assinar um novo tratado com o papa Bento XVI no qual , mesmo ainda dependendo de aprovação pelo Congresso (o que só depende do poder de fogo dos deputados e senadores da Universal... saberemos, enfim, quem é maioria lá!) introduz pelo menos duas novidades preocupantes: (1) não só exclui os religiosos profissionais do mundo do direito do trabalho, como também (2) tenta direcionar a introdução de ensino religioso no ensino público (um tema ao qual poucos de nós temos dado suficiente atenção) estabelecendo a hegemonia de um dos credos - o católico - sobre os demais (quando fala em "ensino religioso", complementa dizendo "ensino religioso, católico e de outras confissões"...

Muitos não sabem, mas o ensino religioso é facultado no ensino público brasileiro pela Constituição Federal Brasileira, e deve ser oferecido no horário normal das aulas - competindo, portanto, em tempo com as demais matérias; é o que diz o parágrafo 1o. do Art. 210:

O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental.

Conheça aqui a íntegra do tal acordo.

Não só estão mais uma vez a desrespeitar a Constituição, estão a fazer-nos retroceder a eras pretéritas, onde a mais antiga monarquia absoluta (mesmo que eletiva) do planeta - o vaticano - ainda consegue determinar como cada um de nós deve viver!

E nós, vamos ficar quietinhos?


A Carta e o Vaticano
Mauricio Dias
Carta Capital (seção: Rosa-dos-Ventos) - 12/01/2009

A crise do mercado abafou o debate sobre a decisão do presidente Lula de, em novembro de 2008, durante visita ao Vaticano, assinar com o papa Bento XVI o tratado que regula o estatuto jurídico da Igreja Católica no Brasil. A oficialização, no entanto, ainda depende da aprovação do Congresso Nacional.

A sociedade civil foi apanhada de surpresa. Mas há uma forte reação, embora desprezada pelos meios de comunicação, que, como se sabe, obedecem quase todos, quase cegamente, aos mandamentos da Santa Sé. A decisão, no entanto, não pode ficar à margem do debate.

“Há pelo menos dois pontos absolutamente controversos no acordo. Um sobre as relações trabalhistas entre os padres e as dioceses, e outro, não menos importante, sobre o ensino religioso nas escolas públicas”, alerta o antropólogo Emerson Giumbelli, professor de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ao definir que não há vinculo trabalhista na Igreja, o acordo põe a questão inteiramente fora de debate e cria um privilégio. Caberia à Justiça do Trabalho, por exemplo, analisar uma das questões que Giumbelli levanta: “Por que o vínculo religioso caracteriza a ausência de vínculo empregatício?”

Em outras palavras, o Estado brasileiro abrirá mão de definir a natureza dessas relações, indiferente às leis trabalhistas.

O problema cresce em importância quando entra em discussão o artigo 11 (dos vinte artigos que compõem o acordo), que trata do ensino religioso. Os termos utilizados no documento estão na Constituição Federal (artigo 210) e na Lei de Diretrizes e Bases (artigo 33). Emerson Giumbelli, que também colabora com o Instituto de Estudos da Religião (Iser), discorre sobre o problema:

“A Constituição refere-se genericamente ao ensino religioso. O texto do Acordo, no entanto, estabelece: ‘ensino religioso, católico e de outras confissões’. Há dois problemas aí. O primeiro é que no Acordo apenas uma das confissões, a católica, legisla sobre as outras. O segundo é que ele insinua a maior pertinência de um modelo confessional de ensino religioso, no qual os alunos são separados de acordo com seus credos e os docentes e conteúdos programáticos passam pelo crivo de autoridades religiosas”.

A inclusão, no texto do Acordo, da palavra “católico” desvirtua o texto da Constituição.

Por trás da questão há muitas perguntas ainda sem resposta. A principal delas: há necessidade do ensino religioso como disciplina na escola pública? Giumbelli lembra que o tratado é mais danoso por intervir e antecipar o fim de um debate complexo, inconcluso.

Estando na Constituição o tema não está fechado ao debate. Mas, se o Acordo entrar em vigor, a discussão morre. Roma locuta, causa finita.


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quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Enfim, um ateísmo com profundidade (por Antonio L.M.C. Costa)

O fato de que mais pessoas assumam abertamente seu ateísmo e livros sobre o tema se tornem best-sellers tem de positivo, no mínimo, uma redução do teor de hipocrisia ambiente. Entretanto, livros como os do britânico Richard Dawkins, zoólogo e de seu compatriota Christopher Hitchens, escritor e crítico literário, não dão uma idéia muito elevada do pensamento ateu ou de sua capacidade de persuasão.

Tais obras são bem fundadas em termos de ciências naturais, mas estão demasiado desinformadas em relação à história, à filosofia e à antropologia da religião para construir uma crítica que soe pertinente a crentes inteligentes. Tais autores declaram essa categoria irrelevante, como se toda a religião se reduzisse ao fundamentalismo e bastasse refutar Adão e Eva para pôr abaixo milênios de fé e de complexas elaborações éticas e metafísicas. Um paradoxo, pois aqueles para os quais a crença literal no Gênesis ou no Alcorão é indissociável da religião são os que menos darão atenção a seus argumentos.

Essencialmente, autores como Dawkins pregam para os convertidos, para estimulá-los a “sair do armário”. Tanto para os ateus menos preocupados com a opinião alheia, quanto para os religiosos abertos ao debate e para aqueles que têm dúvidas sinceras e profundas, tais obras são rasas e pouco relevantes.

É um ponto de vista bem diferente o do filósofo francês André Comte-Sponville. Em O Espírito do Ateísmo, (Martins Fontes, 192 págs, R$ 32,50), consegue convencer o leitor de que um ateu pode ser não só inteligente e cientificamente bem-informado, como também culto, profundo e sensível.

A primeira parte do livro, “Pode-se viver sem religião?”, talvez seja a menos satisfatória. Sua resposta é que não faz diferença alguma, o que não é lá muito animador e nem sempre é totalmente crível.

Conta a história do hipotético pai que perde a fé em Deus, mas avisa aos filhos: “no que diz respeito aos valores que procurei lhes transmitir, nada se altera: conto com que vocês continuem a respeitá-los”.

Naturalmente, não é por deixar de ser crente que alguém deveria inverter todos os seus valores – muitos deles tiveram ótimas razões para serem adotados – mas, quando se acredita que a moral existe apenas como necessidade humana e não como decreto divino transcendente, é de se esperar uma atitude mais crítica e racional, a relativização ou mesmo abandono de algumas regras tradicionais e talvez também a revalorização e mesmo a invenção de outras.

Comte-Sponville admite que sua posição em relação a preservativos e homossexualidade não é a da moral cristã tradicional, mas insiste: nas “grandes questões morais”, crer ou não nada altera de essencial. Na medida em que fala por suas escolhas e convicções pessoais, nada a objetar, mas não se vê como se poderia fazer disso um princípio universal.

O filósofo francês acredita-se comprometido com os valores tradicionais do Ocidente cristão, mesmo se não com a fé cristã. Mas é escolha sua essa fidelidade à tradição e ao passado, que compara explicitamente com a piada do rabino que se tornou ateu, mas ainda assim continua com as preces rituais, pois “que tem Deus a ver com isso?” Se tivesse nascido na China, Índia ou África, admite, seu caminho seria diferente.


Mas também o leitor latino-americano pode ficar em dúvida sobre se o pensamento do filósofo lhe é aplicável. Nestas terras parte índias, parte africanas, faz pouco sentido a fidelidade exclusiva à tradição ocidental cristã, um entre outros ingredientes de um sincretismo ainda por estabelecer e consolidar, inclusive na esfera dos valores... Mas por que também um europeu não poderia, à maneira de Voltaire e Montesquieu, relativizar essa monogamia ético-histórica e aceitar ter algo a aprender com os valores de outras culturas?

A troca da “fé” pela “fidelidade” é pouco promissora, se não se distingue este segundo conceito do mero conformismo. Com ou sem fundamento, a fé no cristianismo – como o islã e no budismo, em suas respectivas esferas de influência – contrariou valores e costumes preexistentes e impôs novos, e é razoável pensar que isso nem sempre é ruim. Seria paradoxal se o ateísmo desarmasse o pensador da possibilidade de criticar em profundidade a cultura na qual se criou.

Mais interessante é o chamado de Comte-Sponville a abrir mão da esperança no sentido teológico da palavra, ou seja, de uma vida eterna e infinitamente bem-aventurada. Propõe, em seu lugar, um alegre desespero: nada é para esperar, tudo é para fazer, no que depende de nós, ou para amar, no que não depende. É o contrário do niilismo, pois os niilistas não são desesperados e sim decepcionados – e não há como se decepcionar a não se em relação a uma esperança prévia.

A segunda parte do livro trata dos argumentos relativos à existência ou inexistência de Deus. Onde Dawkins, por exemplo, limita-se a descartar os tradicionais argumentos em favor da existência de Deus em três páginas como “tolos”, sem chegar a compreendê-los, o francês os discute e refuta no plano filosófico, como deve ser.

Em seguida, passa aos argumentos do ateísmo. Nada de noções de ciência para principiantes, mas sim pontos que vão ao fundo das razões filosóficas e psicológicas da crença. Por exemplo, a existência do mal, pelo qual nem só a humanidade é responsável. A mediocridade do ser humano, que não permite fazer uma idéia muito elevada do ser supostamente onipotente que o criou. E seu próprio desejo de um Deus, que torna suspeito todo impulso religioso como confusão entre desejo e realidade.

A terceira parte é, talvez, a mais interessante. Discute espiritualidade atéia, coisa de que Dawkins reduz ao senso de maravilha ante a complexidade do Universo e Hitchens sequer cogita. Comte-Sponville reconhece a experiência mística e o sentido espiritual do confronto com o infinito, a eternidade e o absoluto, dando-lhe o seu devido lugar – não o primeiro no mundo, mas o mais elevado no ser humano. Não se trata da consideração intelectual das leis da natureza, mas de um estado de consciência particular, de um sentimento espontâneo de paz, união e pertencimento.

Experiência silenciosa, mas que pode ser descrito como suspensão da banalidade, do já conhecido, pensado e dito, deixando-nos à frente com o novo, com o singular e com o mistério que é, ao mesmo tempo, a evidência do ser. Suspensão também da carência e da cobiça, permitindo o contato com a liberdade e a plenitude. Suspensão do ego e seu discurso, abrindo à experiência da unidade, simplicidade e verdade. Colocação entre parênteses da expectativa e do medo, do passado e do futuro, para que se possa constatar a serenidade e a eternidade.

O sentimento, enfim, de que não se precisa esperar pelo Reino, pois já estamos nele. É o Pentecostes dos ateus, ou o verdadeiro espírito do ateísmo, diz o filósofo: não o Espírito que desce, mas o espírito que se abre e se regozija. Não é a verdade e o absoluto que são amor, mas o amor que, às vezes, é verdadeiro e nos abre para o absoluto.

Antonio Luiz M. C. Costa
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Ciência e Ficção Científica

Fonte: Carta Capital - Coluna "Diálogos" de 08/04/2008 11:51:55




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