sexta-feira, 6 de maio de 2011

Evolução versus naturalismo: um desafio lógico aos ateus?

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O "Crocopato", o argumento final ?

O crocopato é só uma brincadeira para criar o clima irreligioso adequado... Mas nem tudo são rosas para a comunidade cética no que tange à qualidade das argumentações utilizadas. Há algum tempo atrás postei comentários acerca das fraquezas e inadequações nos argumentos de alguns dos paladinos do neoateísmo (claro que há exceções), e cheguei a chamá-los de "ateus incultos" por simplesmente desconhecerem séculos de argumentações agnósticas, atéias, antiteístas ou basicamente apateístas pré-existentes em que o credo irracional era combatido antes com a lógica que com a retórica ou mesmo a empiria. Talvez a melhor forma de ressaltar isso seja um EXERCÍCIO COLETIVO de análise e discussão com ênfase na estrutura lógica dos argumentos: trago, então, um desafio que anda recentemente atormentando alguns círculos céticos (apesar de não ser novo), um artigo do filósofo analítico (e cristão) Alvin Plantinga, muito bem traduzido por Daniel Brisolara para o blogue cristão Apologia (existe também um blogue calvinista dedicado ao filósofo). Valeu, Luiz, pela dica!

Quem se habilita a dissecar e desarticular o aparente cheque-mate lógico que Plantinga aplica nos infiéis?

EVOLUÇÃO VERSUS NATURALISMO
Por que eles são como óleo e água

Por Alvin Plantinga, 2008 - AntiMatters

Como todos sabem, tem havido uma recente enxurrada de livros atacando a fé cristã e a religião em geral. Alguns desses livros são um pouco mais do que ladainhas, cheios de insultos, mas curtos em razões, cheios de afrontas, mas curtos em competência, cheios de justas indignações, mas curtos em bom senso; na maior parte, eles são dirigidos mais por ódio do que pela lógica. É claro que existem outros que são intelectualmente mais respeitáveis – por exemplo, a contribuição de Walter Sinott-Armstrong em God? A Debate Between a Christian and an Atheist[1] [Deus? Um debate entre um cristão e um ateu] e a contribuição de Michael Tooley em Knowledge of God[2] [Conhecimento de Deus]. Quase todos esses livros foram escritos por filósofos naturalistas. Eu acredito que é extremamente importante ver que o naturalismo em si, a despeito do tom presunçoso e arrogante dos assim chamados Novos Ateus, está numa m uito séria dificuldade filosófica: não se pode sensatamente acreditar nele.

Naturalismo é a idéia de que não há tal pessoa como Deus ou qualquer coisa como Deus; nós podemos pensar nessa posição como ateísmo turbinado ou talvez ateísmo plus. É possível ser ateu sem ascender a arrogantes altitudes (ou descender até as profundezas tenebrosas) do naturalismo. Aristóteles, os antigos Estóicos, e Hegel (ao menos em alguns estágios) poderiam apropriadamente ser considerados ateístas, mas eles não poderiam apropriadamente ser considerados naturalistas: cada um endossa alguma coisa (Primeiro Motor de Aristóteles, O Nous Estóico, O Absoluto de Hegel) que nenhum naturalista que se auto-respeite poderia tolerar.

Nos dias de hoje o naturalismo está excessivamente na moda na academia; alguns dizem que é a ortodoxia acadêmica contemporânea. Diante da moda de várias formas de anti-realismo e relativismo pós-moderno, isto pode ser um pouco forte. No entanto, o naturalismo é certamente mais difundido, e está exposto em alguns recentes livros populares como O Relojoeiro Cego de Richard Dawkins, A Perigosa Idéia de Darwin, de Daniel Dennett, e em muitos outros. Os naturalistas gostam de se agasalhar (ou de se envolver) nos mantos da ciência, como se a ciência de alguma maneira apoiasse, endossasse, subscrevesse, sugerisse, ou fosse de alguma maneira inabitual amigável ao naturalismo. Particularmente, eles freqüentemente recorrem à moderna teoria da evolução como uma razão para abraçar o naturalismo; de fato, o subtítulo do livro de Dawkins, O Relojoeiro Cego é Por que a Evidência da Evolução Revela um Universo s em Design. Muitos parecem pensar que a evolução é um dos pilares do templo do naturalismo (e “templo” é a palavra certa: o naturalismo contemporâneo tem, sem dúvida, assumido um invólucro religioso, com um sacerdócio secular fervoroso para reprimir visões opostas como qualquer mullah). Eu me proponho a argumentar que o naturalismo e a evolução estão em conflito um com o outro.

Eu disse que o naturalismo está numa dificuldade filosófica; isto é verdade em diversos aspectos, mas aqui eu quero me concentrar sobre apenas um – aquele conectado com a idéia de que a evolução apóia ou endossa ou é de algum modo evidência para o naturalismo. Do modo como eu vejo, isto é um erro colossal: evolução e naturalismo não são apenas companheiros constrangidos; eles são mais como combatentes beligerantes. Não se pode racionalmente aceitar ambos: evolução e naturalismo; não se pode ser um naturalista evolucionista. O problema, como muitos pensadores (C.S. Lewis, por exemplo) têm visto, é que o naturalismo, ou o naturalismo evolucionista, parece conduzir a um ceticismo fundo e penetrante. Ele leva à conclusão de que nossa cognição ou faculdades produtoras de crenças – memória, percepção, insight lógico, etc. – são duvidosas e não se pode confiar nelas para produzir uma pre p onderância de crenças verdadeiras sobre crenças falsas. O próprio Darwin teve preocupações com esses assuntos: “Comigo”, diz Darwin, “a dúvida horrível sempre surge se as convicções da mente do homem, as quais têm sido desenvolvidas da mente de animais inferiores, são de qualquer valor ou dignas de confiança. Poderia qualquer um confiar nas convicções da mente de um macaco, se houvesse qualquer convicção em tal mente?”[3].

Claramente, esta dúvida surge para os naturalistas ou ateus, mas não para aqueles que acreditam em Deus. Isto porque se Deus nos criou à sua imagem, então mesmo que ele tenha nos moldado por meios evolucionários, ele presumivelmente queria que nós parecêssemos com ele na capacidade de conhecer; mas então a maior parte do que nós acreditamos pode ser verdade mesmo que nossas mentes tenham se desenvolvido a partir daquelas dos animais inferiores. Por outro lado, há um problema real aqui para o naturalista evolucionista. Richard Dawkins certa vez declarou que a evolução tornou possível ser um ateu intelectualmente realizado. Eu creio que ele está fatalmente enganado: eu não creio que é possível de alguma maneira ser um ateu intelectualmente realizado; mas de qualquer modo você não pode racionalmente aceitar ambos, evolução e naturalismo.

Por que não? Como segue o argumento?[4] A primeira coisa a se ver é que os naturalistas são também sempre ou quase sempre materialistas: eles pensam que os seres humanos são objetos materiais, com nenhuma alma imaterial ou espiritual, ou um eu (self). Nós somos apenas nossos corpos, ou talvez algumas partes dos nossos corpos, tais como o nosso sistema nervoso, ou cérebros, ou talvez parte de nossos cérebros (o hemisfério direito ou esquerdo, por exemplo) ou talvez alguma parte ainda menor. Então vamos pensar no naturalismo como incluindo o materialismo[5]. E agora vamos pensar sobre crenças de uma perspectiva materialista. De acordo com os materialistas, crenças, juntamente com o resto da vida mental, são causadas ou determinadas pela neurofisiologia, pelo que acontece no cérebro e no sistema nervoso. A neurofisiologia, além disso, também causa o comportamento. De acordo com a história habitual, sinai s elétricos seguem via nervos aferentes dos órgãos sensoriais até o cérebro; lá alguns processos continuam; então impulsos elétricos vão via nervos eferentes do cérebro para outros órgãos incluindo músculos; em resposta a estes sinais, certos músculos se contraem, assim causando movimento e comportamento.

Agora, o que a evolução nos diz (supondo que nos diz a verdade) é que nosso comportamento (talvez mais exatamente o comportamento de nossos ancestrais) é adaptativo; desde que os membros de nossa espécie têm sobrevivido e se reproduzido, o comportamento de nossos ancestrais foi conduzido, no seu meio, à sobrevivência e à reprodução. Portanto, a neurofisiologia que causou este comportamento era também adaptativa; nós podemos sensatamente inferir que permanece adaptativa. O que a evolução nos diz, portanto, é que nosso tipo de neurofisiologia promove ou causa comportamento adaptativo, o tipo de comportamento que resulta em sobrevivência e reprodução.

Agora, esta mesma neurofisiologia, de acordo com o materialista, também causa crenças. Mas enquanto a evolução, a seleção natural premia o comportamento adaptativo (premia-o com sobrevivência e reprodução) e penaliza comportamentos mal-adaptativos, ele não se importa nem um pouco a respeito da crença verdadeira. Como Francis Crick, o co-descobridor do código genético, escreve no livro The Astonishing Hypothesis [A Hipótese Deslumbrante], “Nossos cérebros altamente desenvolvidos, conseqüentemente, não evoluíram sob a pressão da verdadeira descoberta científica, mas apenas nos possibilitam a ser sagazes o bastante para sobreviver e deixar descendentes”. Retomando este tema, a filósofa naturalista Patrícia Churchland declara que a coisa mais importante sobre o cérebro humano é que ele evoluiu; portanto, ela diz que a sua principal função é possibilitar ao organismo mover-se apropriadamente: < /p>

Resumindo o essencial, o sistema nervoso possibilita o organismo ter êxito nos quatro aspectos: alimentação, fuga, luta e reprodução. O cerne principal do sistema nervoso é colocar as partes do corpo onde elas deveriam estar a fim de que o organismo possa sobreviver… . Melhoramentos no controle sensório-motor conferem uma vantagem evolucionária: um estilo imaginativo de representação é vantajoso na medida em que está engrenado no modo de vida do organismo e aumenta as suas chances de sobrevivência [ênfase de Churchland]. A verdade, o que quer que seja, definitivamente fica para trás[6].

O que ela quer dizer é que a seleção natural não se preocupa acerca da verdade ou da falsidade de suas crenças; preocupa-se apenas com o comportamento adaptativo. Suas crenças podem todas ser falsas, ridiculamente falsas; se seu comportamento é adaptativo você sobreviverá e reproduzirá. Considere um sapo sentado sobre uma vitória régia. Uma mosca o ignora; o sapo estende sua língua e a captura. Talvez a neurofisiologia que causa isto dessa maneira, também cause crenças. Até onde a sobrevivência e a reprodução sejam levadas em conta, isto não importará em absoluto o que essas crenças são: se a neurofisiologia adaptativa causa uma crença verdadeira (por exemplo, aquelas coisas pequenas e pretas são boas de comer), ótimo. Mas se causa uma crença falsa (por exemplo, se eu capturar a mosca correta, eu me transformarei em um príncipe), isto também está ótimo. De fato, a neurofisiologia em ques t ão pode causar crenças que não tem nada a ver com as circunstancias presentes da criatura (como no caso de nossos sonhos); enquanto a neurofisiologia causar comportamento adaptativo, isto também está ótimo. Tudo que realmente importa, no que diz respeito à sobrevivência é à reprodução, é que a neurofisiologia cause o tipo certo de comportamento; se ela também causa crença verdadeira (em vez de crença falsa) é irrelevante.

Em seguida, para evitar chauvinismo entre espécies, não vamos pensar sobre nós mesmos, mas ao invés disso pensemos numa população hipotética de criaturas muito parecidas conosco, talvez vivendo num planeta distante. Como nós, essas criaturas desfrutam de percepção, memória, e razão; elas formam crenças sobre muitos assuntos, eles raciocinam e mudam de crenças, e assim por diante. Vamos supor, além disso, que a evolução naturalística vale para eles; isto é, suponha que eles vivam num universo naturalístico e tenham vindo à existência através dos processos postulados pela teoria evolucionista contemporânea. O que nós sabemos sobre essas criaturas, então, é que elas têm sobrevivido; a neurofisiologia delas tem produzido comportamento adaptativo. Mas e à respeito da verdade das crenças delas? E sobre a confiabilidade de suas produção de crenças ou faculdade cognitivas?

O que nós aprendemos de Crick e Churchland (e o que é em todo caso óbvio) é isto: o fato de que nossas criaturas hipotéticas terem sobrevivido não nos diz nada sobre a verdade de suas crenças ou sobre a confiabilidade de suas faculdades cognitivas. O que isto nos diz é que a neurofisiologia que produz essas crenças é adaptativa, assim como é o comportamento causado por aquela neurofisiologia. Mas simplesmente não importa se as crenças causadas também por aquela neurofisiologia são verdadeiras ou não. Se elas são verdadeiras, excelente; mas se elas são falsas, isto está bem também, desde que a neurofisiologia produza comportamento adaptativo.

Então considere qualquer crença particular da uma parte de uma dessas criaturas: qual é a probabilidade que esta seja verdade? Bem, o que nós sabemos é que a crença em questão foi produzida pela neurofisiologia adaptativa, neurofisiologia que produz comportamento adaptativo. Mas como nós temos visto, isto não nos dá nenhuma razão para pensar que essa crença seja verdadeira (e nenhuma para pensar que seja falsa). Nós devemos supor, portanto, que a crença em questão tem tanta probabilidade de ser falsa quanto de ser verdadeira; a probabilidade de qualquer crença particular ser verdadeira está perto de 1/2. Mas então é solidamente improvável que as faculdades cognitivas dessas criaturas produzam preponderantemente crenças verdadeiras sobre falsas conforme exigido pela confiabilidade. Se eu tenho 1.000 crenças independentes, por exemplo, e a probabilidade de qualquer crença particular ser verdadeira é 1/2, então a probabilidade de que 3/4 ou mais dessas crenças são verdadeiras (certamente uma exigência modesta o bastante para confiabilidade) será pouco menos do que 10(-58). E mesmo se eu estivesse trabalhando com um modesto sistema epistêmico de apenas 100 crenças, a probabilidade de que 3/4 delas sejam verdadeiras, dado que a probabilidade de qualquer um seja verdadeira é de 1/2, é muito baixa, alguma coisa como 0,000001[7]. Então as chances de que as crenças verdadeiras dessas criaturas substancialmente sobrepujem suas falsas crenças (mesmo numa área particular) são pequenas. A conclusão retirada é que é extremamente improvável que suas faculdades cognitivas sejam confiáveis.

Mas é claro que este mesmo argumento poderá também ser destinado a nós. Se o naturalismo evolucionista é verdadeiro, então a probabilidade de que nossas faculdades cognitivas sejam confiáveis é também muito baixa. E isto significa que alguém que aceite o naturalismo evolucionista tem um obstáculo para a crença de que as faculdades cognitivas dela são confiáveis: uma razão para desistir daquela crença, para rejeitá-la, para não mais sustentá-la. Se não existir um obstáculo para aquele obstáculo – um obstáculo-obstáculo, poderíamos dizer – ela não poderia racionalmente acreditar que as faculdades cognitivas dela são confiáveis. Sem dúvida que ela não poderia deixar de acreditar que elas são; sem dúvida ela de fato continuaria a acreditar nisso; mas a crença seria irracional. E se ela possui um obstáculo para a confiabilidade de suas faculdades cognitivas, ela também tem um obstácu l o para qualquer crença que sejam produzidas por estas faculdades – as quais, é claro, são todas as suas crenças. Se ela não pode confiar nas suas faculdades cognitivas, ela tem uma razão, à respeito de cada uma de suas crenças, para desistir delas. Ela está, portanto, enredada num ceticismo profundo e abismal. Uma de suas crenças, contudo, é a sua crença no próprio naturalismo evolucionista; de modo que ela também tem um obstáculo para esta crença. O naturalismo evolucionista, portanto – a crença numa combinação de naturalismo e evolução – é auto-refutante, auto-destrutivo e atira no seu próprio pé. Portanto você não pode racionalmente aceita-lo. Por todos estes argumentos apresentados, ele pode ser verdadeiro; mas é irracional sustentá-lo. Assim o argumento não é um argumento para a falsidade do naturalismo evolucionista; ao invés disso, para a conclusão de que não se pode racionalmente acreditar naquela proposição. A evolução, p or tanto, longe de sustentar o naturalismo, é incompatível com ele, nesse sentido que você não pode racionalmente acreditar em ambos.

Que tipo de aceitação este argumento tem tido? Como você pode esperar, naturalistas tendem a ser menos do que inteiramente entusiastas acerca dele, e muitas objeções têm sido trazidas contra ele. Em minha opinião (a qual é claro algumas pessoas podem considerar tendenciosa), nenhuma dessas objeções é bem-sucedida[8]. Talvez a objeção mais importante e intuitiva seja como se segue. Retornando à população hipotética de alguns parágrafos atrás. Considerando, poderia ser que o comportamento deles fosse adaptativo mesmo que suas crenças fossem falsas; mas não seria muito mais provável que seus comportamentos fossem adaptativos se suas crenças fossem verdadeiras? E isto não significa que, desde que seus comportamentos são de fato adaptativos, suas crenças provavelmente verdadeiras e suas faculdades cognitivas provavelmente confiáveis?

Isto é na verdade uma objeção natural, particularmente dado o modo como nós pensamos sobre nossa própria vida mental. É claro que vocês são melhores candidatos a atingir seus objetivos, e é claro que vocês são melhores candidatos a sobreviver e a reproduzir se suas crenças são na sua maioria verdadeiras. Vocês são hominídeos pré-históricos vivendo sobre as planícies de Serengeti; claramente vocês não durarão muito se vocês acreditarem que os leões são gatinhos crescidos que gostam nada menos do que serem acariciados; Assim, se nós supomos que estas criaturas hipotéticas estão no mesmo tipo de situação cognitiva que nós ordinariamente pensamos que estamos, então certamente eles teriam muito mais provavelmente sobrevivido se suas faculdades cognitivas fossem confiáveis do que se elas não fossem.

Mas é claro que nós não podemos supor que eles estão na mesma situação cognitiva que nós pensamos que estamos. Por exemplo, nós supomos que nossas faculdades cognitivas são confiáveis. Nós não podemos sensatamente supor isto acerca dessa população; afinal de contas, o ponto principal do argumento é mostrar que se o naturalismo evolucionista é verdadeiro, então muito provavelmente nós e nossas faculdades cognitivas não são confiáveis. Assim refletindo uma vez mais sobre o que nós sabemos acerca dessas criaturas. Eles vivem num mundo no qual o naturalismo evolucionista é verdadeiro. Portanto, desde que eles tenham sobrevivido e reproduzido, os seus comportamentos têm sido adaptativos. Isto significa que a neurofisiologia que causa ou produz este comportamento tem também sido adaptativa: isto tem possibilitado a eles sobreviver e reproduzir. Mas e quanto às suas crenças? Estas crenças têm sid o produzidas ou causadas pela neurofisiologia adaptativa; com certeza. Mas isto não nos dá nenhuma razão para supor estas crenças como verdadeiras. Até onde for a adaptatividade de seus comportamentos, não importa se tais crenças são verdadeiras ou falsas.

Suponha que a neurofisiologia adaptativa produza crenças verdadeiras: ótimo; ela também produz comportamento adaptativo, e que isto é o que importa para sobrevivência e reprodução. Suponha, por outro lado, que a neurofisiologia produza crenças falsas: novamente ótimo: ela produz falsas crenças, mas comportamento adaptativo. Realmente não importa que tipo de crenças a neurofisiologia produz; o que importa é o que causa o comportamento adaptativo; e isto ela claramente faz, não importa que tipo de crenças ela também produz. Portanto não há razão para pensar que se o comportamento deles é adaptativo, então é provável que suas faculdades cognitivas são confiáveis.

A conclusão óbvia, como assim me parece, é que o naturalismo evolucionista não pode sensatamente ser aceito. Os altos sacerdotes do naturalismo evolucionista proclamam em altas vozes que o cristianismo e mesmo a crença teísta está falida e que é ridícula. O fato, entretanto, é que a mesa virou. É o naturalismo evolucionista, e não a crença cristã, que não pode ser racionalmente aceito.

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[1] Resenhado por Douglas Groothuis, em um texto onde quatro livros que lidam com o ateísmo de uma forma ou de outra são examinados [http://www.christianitytoday.com/bc/2008/004/12.39.html]. Nota do tradutor: O livro não possui tradução para o português.

[2] Escrito em co-autoria com Alvin Plantinga na série Blackwell’s Great Debates in Philosoph (Blackwell, 2008). Nota do tradutor: O livro não possui tradução para o português.

[3] Carta a William Graham (Down, 3 de Julho, 1881), em The Life and Letters of Charles Darwin, ed. Francis Darwin (London: John Murray, 1887), Volume 1, pp. 315-16.

[4] Aqui eu vou fornecer apenas a essência do argumento; para uma descrição mais completa veja o meu Warranted Christian Belief (Oxford Univ. Press, 2000), cap. 7; ou minha contribuição para Knowledge of God (Blackwell, 2008); ou Natural Selection and the Problem of Evil (The Great Debate), editado por Paul Draper, www.infidels.org/library/modern/paul_draper/evil.html.

[5] Se você não pensa que o naturalismo inclui o materialismo, então pense no meu argumento como a conclusão de que não se pode sensatamente aceitar a conjunção tripartite do naturalismo, evolução e materialismo.

[6] “Epistemology in the Age of Neuroscience,” Journal of Philosophy, Vol. 84 (October 1987), pp. 548-49.

[7] Agradeço a Paul Zwier, que realizou os cálculos.

[8] Veja, por exemplo, Naturalism Defeated?, ed. James Beilby (Cornell Univ. Press, 2002), que contém dez artigos por críticos do argumento, junto com minhas respostas às suas objeções.


Tradução: Daniel Brisolara

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15 comentários:

Ney Lemke disse...

Texto interessante mas tenho minhas duvidas se as minhas discordancias são devidas a minha dificuldade para acompanhar os argumtnos ou se a maior parte do texto contém falhas elementares.

Eu vou me abster de discutir as infindáveis falhas lógicas do cristianismo. Para mim não é uma questão que mereça discussão. Ou seja o ponto minimamente válido do texto é se naturalismo e evolução são logicamente incompatíveis. Pelo que
eu entendo o texto tenta abordar essa questão de uma forma semi-empírica o que por si só me parece questionável.

Do ponto de vista da lógica, recorre a discussões probilísticas sobre a verdade. O que me parece de novo filosoficamente insustentável. "Em Logica nada é acidental" (Wittgenstein, Jovem).

Do ponto de vista evolutivo existem as tradicionais falácias de sempre:
- confunde evolução com pan-adapatacionismo
- esquece que mesmo comportamentos observados
hoje podem ser consequencias de vantagens adaptativas ocorridas ha milhares de anos

Envoca a neurofisiologia como ferramenta para extrair
conclusões superlativas, o que contrasta com as enormes dificuldaddes conceituais e experimentais
que enfrentamos para estabelecer as ligações entre crenças e genes. Ou seja ainda não temos ciência para atacar muitos desses pontos. "Sobre o que não se pode falar, só se pode calar". (Wittgesntein). "Ciência é a arte de não enganar a si mesmo" (Feynman).


O cerne do argumento, pelo que eu entendi, e
que o naturalismo é uma crença e a evolução é agnóstica a crenças. Logo as crenças não conferem
vantagem adaptativa pois elas são quase sempre falsas, o que não justificaria que elas existam, ou seja estamos em contradição. Pois não deveriamos ter crenças já que elas não são
adaptativas.
Paguem os dízimos e odeiem os camarões, pois Deus existe e nós fomos criados a sua imagem e semelhança.

Concluo com certa tristeza que involuímos nessas discussões (talvez de ambos os lados). Eu termino com uma histórinha etológica que eu li no Joseph Campbell, que discute com muito mais profundidade essas questões. Os pintinhos
quando percebem uma sombra se aproximando deles
fogem e se escondem. Imagino que a "crença" deles
seja de que em todos os casos seja um gavião. Estarão errados se colocarmos um modelo de papelão na forma de um gavião. Mas mesmo assim creio que evolutivamente vão estar certos a maior parte das vezes...

Os homens evoluiram em condicoes materiais muito diferentes das atuais, em alguns casos crenças foram uteis, ou simplesmente como bons memes dominararm uma população e acabaram se eternizando por deriva gênica mesmo sem trazerem nenhuma vantagem evoltiva, ou mesmo sendo levemente danososas (como o
uso de vinho na santa ceia).

Guilherme disse...

Realmente um ponto interessante. O despreparo de alguns dos que se auto promovem como "defensores do ceticismo e do ateísmo" é sofrível.

Agora, a probabilidade de qualquer crença particular ser correta é 1/2?

Enfim, deixemos isso de lado. O grande problema do argumento é que a Teoria da Evolução NÃO é uma crença. É um conhecimento científico testado e confirmado pelas evidências.

A ciência não é como uma crença, um longo tiro no escuro. A ciência é um cego, que tal como o personagem de O Poço e o Pêndulo de Poe, vai lentamente tateando a parede do aposento a procura do conhecimento. E quando enfim as vendas são retiradas, confirma ou refuta o conhecimento.

Isso não é uma crença, é praticamente o oposto de uma crença.

André T. disse...

Na verdade esse argumento não é novo: é basicamente a afirmação de que o naturalismo é self-defeating porque, se a mente humana é um produto da TE, a capacidade dela de captar a realidade é duvidosa e não se pode afirmar nada sobre a própria realidade.

Existem VÁRIAS respostas aos argumentos do Platinga. Ele, inclusive, tem argumentos melhores do que esse. Pra quem tiver curiosidade, a wiki inglesa tem muita discussão sobre o assunto:
http://en.wikipedia.org/wiki/Evolutionary_argument_against_naturalism#Responses

André T. disse...

Sem querer fazer propaganda mas já fazendo, um texto que publiquei no meu blog que versa mais ou menos sobre o mesmo assunto:
http://digitandodeesquerda.blogspot.com/2010/05/porque-os-neo-ateus-falharam-e-como.html

Chico disse...

Confesso que eu não teria dado muita atenção ao texto do Platinga se o tivesse lido sem saber que o autor é um renomado filósofo, exceto talvez pelo fato do texto estar bem escrito. Me pareceu que o autor seguiu uma linha de raciocínio arbitrária, sem considerar outras possibilidades igualmente válidas, para tentar sustentar sua hipótese formulada com indisfarçável viés. Até aí tudo bem. É o papel dele como cristão. Mas meu ponto de vista é bem diferente.

Vejo o naturalismo não como uma crença, mas como um paradigma de interpretação da natureza que é na verdade um inimigo das crenças. Precisamente pelas crenças humanas serem suspeitas, através do naturalismo se coloca a natureza como referência autônoma. Faz sentido, já quer somos impotentes perante as leis naturais e a natureza parece se expressar por padrões compreensíveis e previsíveis. A evolução é então simplesmente um produto direto do paradigma naturalista de observação, não um opositor. Em resumo, entendo o naturalismo como uma metodologia ou uma filosofia em vez de uma crença. Se devemos CRER que o naturalismo é uma boa estratégia é outra história. Mas me parece que tem dado certo.

Joao disse...

Oi.

O texto desaponta e devia ser fácil mostrar que está errado.

Um corolario para a argumentação do p. é que a inteligencia não pode ter origem evolutiva, porque por adaptação não se seleciona a inteligencia.

Mas a inteligencia, que leva a melhores crenças, é um mecanismo com o melhor sucesso adaptativo.

O que refuta o texto dele.

Os erros estão na probabilidade à priori errada (se as crenças forem por indução deve ser muito melhor que isso, já que os que estiverem certo da acção a tomar apenas metade das vezes ou aprendem ou não ficam para contar a historia - e ele ao perceber isso conclui que então as crenças estão erradas e não que a probabilidade à priori que ele deu é errada!) e por espantalhos em relação ao naturalismmo e ao modelo evolutivo

Joao disse...

Se a inteligencia melhora a adaptação

e se a TE favorece os mais bem adaptados,

logo,

favorece os mais inteligentes.

logo,

temos uma maneira de melhorar a crença com origem evolutiva - a inteligencia.

Desde que a inteligencia seja uma vantagem adaptativa o argumento do platinga cai por terra.

Joao disse...

"Tudo que realmente importa, no que diz respeito à sobrevivência é à reprodução, é que a neurofisiologia cause o tipo certo de comportamento; se ela também causa crença verdadeira (em vez de crença falsa) é irrelevante."

Não é irrelevante porque é dificil crenças falsas que levem a sucesso.

Existem mas são substituidas pelas melhores. Tal como os outros genes.

Joao disse...

"O que nós aprendemos de Crick e Churchland (e o que é em todo caso óbvio) é isto: o fato de que nossas criaturas hipotéticas terem sobrevivido não nos diz nada sobre a verdade de suas crenças ou sobre a confiabilidade de suas faculdades cognitivas"

Isto também pressupoem que uma crença estar mais proxima da verdade não a leva a ser mais funcional e bem sucedida.

Mas é obviamente um erro. A crença capaz de fazer mais previsões correctas é para todos os efeitos a mais funcional e tanto quanto qualquer um pode saber, desde Popper e Einstein, a melhor aproximação à verdade é explicar o que se sabe e fazer previsões.. A unica que produziu respostas até hoje.

Como o Platinga quer uma especie cheia de crenças erradas mas altamente eficazes ultrapassa a minha inteligencia animal. Que na realidade é da mesma estirpe que a dele.

Com duvidas ou não, ha respostas que são capazes de fazer previsões mais especificas qeu outras. Essas repostas são as da ciencia.

E a ultima vez que olhei ainda não havia necessidade de postular consciencia no que pode ser explicado sem ela - a evolução.

NAturalmente que o cerebro humano tem self e consnciencia. Não tem é alma imortal.

Eli Vieira disse...

Começou como um comentário aqui, mas ficou grande demais, então aqui está a minha resposta ao Plantinga no Bule Voador:

http://bulevoador.haaan.com/2011/05/08/vulneravel-como-um-filosofo-na-savana/

Jorge Quillfeldt disse...

Legal, Eli, mas tu não contas, pois és sempre muito aplicado ao te debruçares sobre os assuntos. Quero ver o resto da turma!

Cansaram, crianças? As respostas prontas que existiam na rede já foram listadas, mas ninguém vai arriscar uma síntese ou comentar quais os caminhos mais adequados para escapar do labirinto teísta de Plantinga?

Tadeu disse...

Creio que o autor seja sagaz, mas, no fundo, não passa de um espertalhão.
Ele defende o seguinte: “se Deus nos criou à sua imagem, então mesmo que ele tenha nos moldado por meios evolucionários, ele presumivelmente queria que nós parecêssemos com ele na capacidade de conhecer”. Em nenhum momento ele prova tal argumento, e todo seu discurso e conclusões são baseados nessa premissa. Portanto, começamos afirmando que a conclusão do último parágrafo seja uma falácia lógica, caso tal premissa esteja incorreta.
Bem, existem diversos livros que mostram MUITÍSSIMAS evidências contrárias ao “design inteligente”. Basta, então, ser um pouco inteligente, para já não aceitar a alternativa sugerida pelo autor ou, pelo menos, considerá-la muito fraca. Aliás, devemos destacar a total falta de sinceridade do autor e das religiõe judaico-cristãs: se somos a imagem e semelhança de Deus e sabendo que não somos perfeitos, E SABEMOS DISTO, Deus mesmo não seria perfeito ... Este discurso me parece mais auto-refutante, auto-destrutivo. Mas vamos ao outro ponto, que diz que o discurso naturalista seja auto-refutante, auto-destrutivo e atira no seu próprio pé.
O mais importante é dizer que, quando se afirma que nossos sentidos e nossas crenças não sejam confiáveis, não quer dizer que eles estejam sempre errados, apenas imcompletos (para isto, recomendo a leitura http://ateus.net/artigos/ceticismo/a-relatividade-do-errado/) ou que existem situações que nos deparemos com paradoxos ou mesmo com falsas previsões: o caso mais clássico são as ilusões visuais, como pode ser visto em http://faculty.washington.edu/chudler/chvision.html#sim , em “Simultaneous Contrast”. Há outra ilusão usando o mesmo princípio, onde as casas de um tabuleiro parecem ser diferentes, mas são exatamente iguais, bastanto apenas igualar o fundo ao redor das casas do tabuleiro que se deseja comparar para verificar isto. Apesar disto, mesmo que você agora saiba da igualdade, continuará vendo como se fossem diferentes!!!!! Baseado nesta ilusão do tabuleiro, então, que continuarei minha segunda parte da argumentação. Embora continuemos vendo que os quadrados têm colorações, somos capazes de saber por que estamos cometendo este erro através do conhecimento de nossa neurofisiologia. Aceitamos, então, a incompletude (ou contradições) do sistema visual. Portanto, um metassistema criado a partir de uma nova estratégia cognitiva nos possibilita entendermos a incompletude, ou mesmo falhas, do sistema visual. É adicionando conhecimento que se chega mais próximo a um conhecimento completo: me parece que tal frase se “auto-alimenta”, mas é nisto que prefiro acreditar. Aliás, se você questionar tal ato de “fé”, iremos para uma regressão infinita, mas que não necessariamente invalide tal pensamento. Lembremos ainda, mais de forma breve, o Teorema da Incompletude de Godel (detalhes na Wikipédia), a qual impõe limites à própria matemática, a qual muitos consideram de caráter divino...
Concluindo, a única coisa que não dá para deixar de se considerar é que a abordagem naturalista, além de mais próxima à realidade (isto é, possuir melhores argumentos), é também muito mais sincera.

Pablo Gusmão Rodrigues disse...

Opinar sobre uma idéia que provém de alguém com status de filósofo ou que, no mínimo, é um grande estudioso de filosofia, sempre provoca um receio de que a resposta pensada seja uma tolice, por incompreensão ou por ser muito óbvia e, portanto, já conhecida e refutada, considerada superada, etc. De qualquer modo, nem teria a pretensão de resolver a questão, apenas deixo aqui os questionamentos que me ocorreram, no intuito de contribuir para a discussão (se digo aqui grandes bobagens, humildemente peço que sejam apontadas).

Pois bem: Plantiga cita uma declaração de Dawkins de que a evolução permitiria que fosse um ateu intelectualmente realizado, provavelmente em referência ao fato da evolução fornecer uma explicação para a complexidade da vida que prescinde da figura de um criador. Todavia, para Platinga, naturalismo e evolucionismo seriam incompatíveis, e a razão dessa incompatibilidade, pelo que entendi, e o que acho que é ilustrado na sua metáfora dos "sapos pensantes", seria mais ou menos essa: se a crença naturalista, como produto da neurofisiologia humana, evoluiu por seleção natural, evoluiu por ser adaptativa, independentemente de ser verdadeira ou falsa; então, o naturalista evolucionista não pode ter certeza de sua crença. É isso? Ou tem mais coisa? Se for mais ou menos isso, eu diria o seguinte:.

Primeiramente, acho questionável a premissa de que uma crença seja produto da seleção natural. De qualquer modo, talvez não faça muita diferença discutir a respeito do papel da seleção natural na evolução (tema, inclusive, controverso na Biologia), pois, independente da causa de origem da característica - se foi "moldada" gradualmente por seleção natural, ou surgiu por algum processo relacionado à biologia do desenvolvimento, ou evoluiu como efeito colateral de uma pressão seletiva relacionada à evolução de outra característica ("exaptação" ou “adaptação cooptada”) - esta terá se estabelecido, como padrão ao longo das gerações, por ser adaptativa. Por isso, penso que o questionamento dos processos causais implicados na premissa mencionada pode ser mais contundente se enfocar a natureza da característica (no caso, a crença). Nesse sentido, eu destacaria dois aspectos relacionados a um possível determinismo neurogenético da crença: (1) crenças complexas podem ter sua origem associada a taxas diferenciais de sobrevivência e reprodução? (2) pode-se afirmar que uma crença é determinada pela neurofisiologia?

(segue...)

Pablo Gusmão Rodrigues disse...

(seguindo...)

Quanto à primeira questão, já vi explicações sociobiológicas para a origem das religiões, mas não sei se haveria para o naturalismo/materialismo (?). Um desdobramento da mesma questão seria abordar a influência cultural na formação da crença, até porque, mesmo características físicas (no sentido de "não psíquicas") de muitos organismos, são adquiridas (e não inatas) ao longo de sua ontogenia em função do ambiente. No caso das crenças, como qualquer outro fator cultural, temos características que são transmitidas para outros indivíduos por meios culturais, não genéticos e independentes de reprodução. Com respeito à segunda questão, certamente, a crença, em cada indivíduo, é "processada" por sua neurofisiologia, não havendo, então, por uma visão naturalista/materialista, alma, espírito, ou qualquer ente no qual a crença de um indivíduo possa existir independente de seu organismo (o "processamento" da crença no indivíduo acaba com a inatividade de seu cérebro). Entretanto, a crença, por si, uma vez elaborada em algum cérebro, pode continuar existindo como um fator cultural e, no que tange ao seu conteúdo (a crença propriamente dita), não há como dizer que é, pelo menos não exclusivamente, biologicamente determinada (ninguém seria reducionista a este ponto, eu acho). Enfim, contrariando determinismo biológico reducionista, e sem negar a evolução biológica e a concpeção naturalista/materialista da mente, eu diria que a cultura, de modo geral, poderia ser considerada uma "propriedade emergente", a qual, ainda que abranja muitas características adaptativas para a espécie, passou também a evoluir pelas suas próprias interações (e seleções).



Ademais, independente de como evoluiu biologicamente, por seleção natural, e/ou de como foi psicológica e socialmente produzida, uma crença normalmente não é justificada como correta pela sua origem. E então chegamos a outro ponto: a justificação da crença. Utlizando a metáfora dos sapos como exemplo, a crença do sapo que comia moscas achando que isso lhe faria bem, poderia ter sido embasada na constatação de que sapos que não comiam morriam. Por sua justificação, esta crença poderia ser considerada mais consistente do que a crença do outro sapo, que achava que comendo moscas poderia um dia se transformar em um príncipe, sem ter qualquer evidência disso, mas baseado em uma antiga narrativa constante em um livro cuja leitura é incentivada de geração para geração, segundo a qual, há cerca de 2 mil anos um sapo virou príncipe por ter comido uma mosca sagrada.



Contudo, ainda acho que os questionamentos mencionados até aqui não invalidam o argumento de Plantiga. (segue...)

Pablo Gusmão Rodrigues disse...

(terminando...)

Contudo, ainda acho que os questionamentos mencionados até aqui não invalidam o argumento de Plantiga. Em primero lugar, as premissas não chegam a ser completamente refutadas, sobrando uma margem, exatamente sob a perspectiva que embasa lógica do argumento, ou seja: a impossibilidade de se ter certeza da veracidade da crença naturalista. Tentanto fazer uma analogia computacional (ressalvadas suas limitações), eu diria que um programa qualquer de processamento de dados, de qualquer natureza, pode ser muito eficiente e gerar resultados com alto grau de precisão, mas não poderíamos eliminar a possibilidade de seus algorítimos levarem a resultados errados, se soubermos que o software fora desenvolvido visando somente à interface com maior apelo comercial (essa seria a "pressão seletiva"). No caso da crença naturalista, pode-se contrariar a premissa de que a crença tenha evoluído por seleção natural e seja apenas produto da neurofisiologia, mas isso somente apontaria incorreções na explicação causal para a crença. Ainda assim, independente de todas as variáveis culturais e biológicas que podem determinar o pensamento de um naturalista, esse pensamento é sempre "processado" por sua neurofisiologia, e, portanto, pode ser distorcido por "erros de sistema" (neurofisiologia) ou de "hardware" (cérebro) que passaram incólumes pelas pressões seletivas, a medida em que influenciaram positivamente, ou, pelo menos não reduziram, as taxas de repodução e sobrevivência ao longo da evolução humana. E, em segundo lugar, o fato da crença ser justificada pelo que se entende por comprovações também não refuta a possibilidade de que esta esteja errada, uma vez que suas evidências abrangem outras crenças que, por sua vez, também são suportadas por crenças. E chegando ao que poderiam ser consideradas, por não envolverem maiores elaborações conceituais, as mais primárias de nossas "crenças comprobatórias", as quais dão suporte a tudo que pensamos, ou seja, aquilo que percebemos pelos nossos sentidos, também não podemos refutar a possibilidade de nosso próprio sistema sensorial e toda nossa neurofisiologia, embora adaptativos, não traduzirem de forma correta a realidade do ambiente que nos cerca.



No entanto, é exatamente ao se tornar aplicável a tudo e ser invensível (para mim, pelo menos), que, na minha opinião, o argumento de Plantiga se esvazia de sentido. Porque caímos num questionamento muito antigo, que não sei se é infantil ou profundo, mas, provavelmente, insolúvel e, para mim, inútil: tudo pode ser uma ilusão (desde que adaptativa). E, para tanto, nem seria preciso ser discutida a seleção natural, pois a possibilidade de vivermos iludidos pode ser aventada diante de qualquer hipótese de causa para a origem das crenças humanas, à exceção única da suposição de que um criador perfeito moldou nosso sistema nervoso (ainda que com algumas "imperfeições") para captar perfeitamente a realidade (também criada por ele).



De qualquer forma, é somente de acordo com as representações, talvez ilusórias, que fazemos da realidade, que podemos viver e tentar comprovar quais, das tantas crenças, estariam mais coerentes com o que, de fato, observamos e entendemos como evidência (ilusão ou não). Obviamente, se o que parece real pode ser ilusão o inverso também pode ocorrer, mas, pelo que se pode captar do que pensamos ser real até o momento, a crença no tal criador é que ainda me parece ser uma ilusão.