Maio de 2026: o dominó geopolítico se alastra rumo ao caos nuclear?
Enquanto ficamos distraídos com tantas barbaridades acontecendo
no país e alhures - e o sortimento é tão espetacularmente variado - uma
situação muito, mas muito grave, está se avolumando, e sem receber a
devida atenção dos meios de comunicação. Se nos basearmos apenas no
noticiário “oficioso” das grandes agências internacionais de notícias (e
nossa mídia lacaia local) não perceberemos que a terceira guerra
mundial talvez já tenha começado. E pode transformar-se numa contenda
nuclear...
Esta situação vem sendo
construída, a rigor, desde abril de 2008, quando EUA e alguns países
europeus decidiram não mais honrar o acordo de não-expansão da OTAN -
que foi o que permitiu a reunificação da Alemanha (03/10/1990), forçando
a inclusão da Ucrânia e Geórgia. Se este países ingressam na OTAN,
podem abrigar mísseis balísticos posicionados a distâncias críticas de
Moscou, o que é uma ameaça existencial à Rússia, e explica os eventos da
Ucrânia, desde o golpe do Maidam em 2014 até a guerra provocada com a
Rússia, que se iniciou com a invasão de 24 de fevereiro de 2022. A
confirmação deste tendência “atlântica” se deu na Cúpula da OTAN de
Madrid, em junho de 2022, que literalmente declarou guerra à Rússia e
aumentou a tensão convidando também a Suécia e a Finlândia para
ingressar no clube da provocação.
Repete-se um roteiro conhecido, que foi o da “crise dos mísseis turcos” de 1960 - que, no ocidente aparece narrada como “crise dos mísseis cubanos” (esta, em 1962), fruto da resposta da então URSS à provocação original - que, não esqueçamos, foi precedida por um golpe de estado na Turquia... Simples assim.
Não dá para entender como as lideranças dos países europeus caem nessa ladainha belicista e são tão facilmente levados a assumir uma postura abertamente russofóbica, a ponto de iniciar um rearmamento em massa preparatório para uma hipotética guerra que, inclusive, estimam para 2029-2030, quando “os russos invadiriam e tomariam a europa continental”, como andam a falar. Entre os fatores que explicariam tal insanidade, estão, em parte, a pressão dos EUA ao abandonar momentaneamente a OTAN e deixá-los “desamparados”... (e nem comentei da destruição do Nordstream 2). Enfim, não foi só nos EUA que a loucura tomou conta.
Mas o fato é que, de provocação em provocação, a coisa vai
espiralando e corre-se o risco de perda do controle, ainda mais com o
tipo de liderança política predominante hoje.
A atual mudança na escala de risco,
que a mídia ainda não alertou nem “analisou”direito, se deu no fim de
semana de 16-17/05, quando Moscou sofreu um ataque massivo direto, com
centenas de drones ucranianos lançados simultaneamente. Embora a grande
mídia até tenha noticiado isso, o fez como se fosse algo natural e
esperado (e exaltando o heroísmo da “resistência” conduzida por
Zelensky), e menos ainda destacou a continuidade dos ataques que
ocorreram esta semana - que incluiram a destruição de um dormitório
estudantil em Luganky com mais crianças mortas. Muito menos mencionou
que há evidências (e até admissão de envolvimento por parte dos EUA) de
que alguns desses drones possam ter sido lançados a partir de outros
países, como a Letônia, o que seria gravíssimo...
O que o jornalismo guerreirista mostrou, sim, foi - e cito uma matéria muito representativa da BBC/Reuters - a “large-scale Russian attack on Ukraine leaves four dead and dozens injured; more than 50 locations across Kyiv were reportedly attacked”, ocorrida neste sábado, 23 de maio ... assim, do nada, sem causa aparente (a não ser, é claro, a pura “malvadeza” do agressor): não é preciso ser pró-russo para perceber o elevado grau de russofobia reinante, o que é compreensível do ponto de vista dos países bálticos, que já pertenceram à esfera soviética e guardam ressentimentos, mas acho surpreendente ver isso em países da Europa ocidental, entre eles, alguns dos que já foram considerados algo como o núcleo cultural da “civilização ocidental”.
A penetração de tal postura irracional ao nível das principais lideranças européias - que preferem soar os tambores de guerra ao invés de pensar em reatar diálogos e negociar a paz - deveria preocupar a todas as pessoas que não desejem evaporar sob uma torrente de cogumelos atômicos. Tanto lá, como aqui, em última instância.
É a fórmula do desastre, pois escaladas de agressão podem rapidamente sair do controle. E a possibilidade de uso de armas nucleares está na mesa, não só ventilada pelo atual ditador estadunidense, mas pela nova doutrina russa, anunciada por Putin em 19/11/2024, que não exclui explicitamente a possibilidade de utilizar armas nucleares primeiro em resposta a ataques militares convencionais muito severos. É só somar os números e ver onde isso pode dar.
Deixo aos sociólogos e antropólogos a discussão sobre se essa não seria mais uma (e, quiçá, a pior) manifestação do atual zeitgeist super-polarizado e conflitivista, que aprisiona as mentes em falsos dilemas simplistas, e que, neste caso, são extremamente perigosos.
Como vários analistas geopolíticos internacionais apontam - John Mearsheimer, Jeffrey Sachs, Scott Ritter e outros - uma linha vermelha foi cruzada com o ataque massivo de drones no meio deste mês de maio, o que colocou a Rússia diante de uma situação impossível - como a que a levou a invadir a Ucrânia: ela precisará flexionar músculos para tentar deter a escalada, ou seja, vai ter de retaliar. Os oreshnikovs hiperssônicos sobre Kyev são parte dessa retaliação, mas há risco de ataques também em países da OTAN, como a Letônia, que pode ter “ajudado” naquele ataque a Moscou, o que é gravíssimo. Não surpreende, porém, tal grau de envolvimento no país de origem de Kaja Kallas, Alta Representante da União Européia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, uma guerreirista russofóbica guinada ao cargo mais crítico para a sobrevivência da Europa justamente neste momento.
Uma vez que não sou especialista em geopolítica, recomendo que
assistam as entrevistas da última semana feitas pelo norueguês Glenn
Diesen, disponíveis no YouTube (linkes abaixo). Goste-se ou não dos
entrevistados, são analistas insuspeitos - alguns são militares
reformados, porém experientes, como Douglas MacGregor, outros
ex-integrantes da comunidade de inteligência, como Scott Ritter (que, a
propósito, foi punido neste sábado com o fechamento de todas as contas
bancárias de sua família) - e, definitivamente não estão à esquerda no
espectro político (nem mesmo o entrevistador, aliás). Mas todos estão
alertando para o atual contexto internacional dentro daquilo que
conhecem muito bem, e convergem em perceber a possibilidade de guerra
total iminente, inclusive nuclear.
________
Novos acontecimentos seguem se desdobrando a cada dia, mas ainda me parecem válidas as análises destes três vídeos (em ordem cronológica):
(1)
John Mearsheimer: Toward All-Out War With Both Russia &
Iran
(Glenn Diesen
18/05/2026)
https://youtu.be/Dx7osj5gCmo?si=JegXUoIT97aa0dmg
(2) Scott Ritter: Europe Attacked Russia - Retaliation Is Now
Unavoidable
(Glenn
Diesen 19/05/2026)
https://youtu.be/tZQIeeR17Hk?si=h5scZigmoPcB1e0C
(3)
Jeffrey Sachs: The Baltic States Are Now the “Most Dangerous Place”
in the World
(Glenn Diesen
23/05/2026)
https://youtu.be/3EfEitDQPj4?si=yFDXqM3fRLmpIaJW
v.5 (26mai2026)
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