Eu havia sugerido no post anterior que a Igreja Católica me excomungasse. Duas vezes. Uma por ter nascido judeu e outra por ser "pró-mulher", ou seja, apoiar a idéia de que o aborto é uma decisão da mulher (a qual, claro, pode se assessorar com o pai da criatura, o médico, o inspetor de polícia, etc). Não é, portanto, uma questão moral. O Renato foi mais longe e pediu sua excomunhão diretamente ao mais famoso, mas por motivos nada invejáveis, bispo brasileiro. Famoso por ter perdido uma grande chance de se fingir de morto e deixar passar batido mais um lance do nosso mundo cão. Se alguém souber de um modo de ser excomungado sem nunca ter comungado, por favor, eu gostaria de saber. Talvez eu devesse escrever para o tal bispo perguntando...
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Após 3 anos de violência sexual doméstica, uma menina pobre, subnutrida, e de apenas 9 anos engravidou, de gêmeos. O agressor foi o próprio padrasto. Por pesar 30kg, seu corpo não poderia suportar o parto, e a equipe que a atendeu corretamente interrompeu a gravidez, apoiada duplamente pela lei (estupro e risco de vida para a gestante). Até aí era somente mais um triste exemplo da nossa dura realidade e, infelizmente, não um caso isolado. O que aconteceu em seguida é revoltante. Fomos presenteados, pelo arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, com um dos maiores e mais claros exemplos da hipocrisia e anacronismo da Igreja Católica. O arcebispo excomungou quase todos os envolvidos: a mãe da menina e os médicos, mas não o seu agressor. Chegou a declarar que o aborto era pior do que o próprio estupro ("Estupra, mas não mata!", diria algum político no ostracismo). Poderia ter sido somente uma atitude infeliz do bispo, não fosse sua decisão apoiada pelo vaticano, ou seja, é assim mesmo que tem que ser.
O argumento do bispo e da Igreja Católica, é de que dois inocentes foram assassinados, e que a missão deles é defender a vida.
Então vejamos. Na Bíblia, nos trechos em que a matança é explicitamente quantificada, temos 2301427 pessoas, mas estima-se o número em mais de 33 milhões, mortas por um Deus misericordioso. Destes, quantos não eram bebês, crianças e mulheres grávidas? Quantos morreram nos grandes massacres, quando quase toda a população da Terra pereceu no dilúvio, ou em Sodoma e Gomorra? Quantos eram os primogênitos no Egito? E os filhos de Abraão, Esau, Achan, Saul, etc? A lista é grande.
Quem são, então, esse Dom José e sua igreja, que dizem defender a vida? Como uma instituição, que abriga e acoberta pedófilos e negadores do Holocasto, pode querer ditar o padrão moral de uma sociedade?
E, sim, podem me incluir na lista de excomungados. Duas vezes.
PS: mais detalhes sobre os bispos acusados de pedofilia aqui.
PS2: este post foi, na verdade, uma desculpa para mostrar este vídeo da Amanda Palmer.
PS3 (09.03.09): olhem também o comentário e tirinha do Adão Iturrusgarai.
Somos um coletivo de professores e estudantes da UFRGS preocupados com a crescente presença do obscurantismo na cultura brasileira, inclusive no meio acadêmico, que deveria caracterizar-se pelo espírito crítico. Neste espaço pretendemos nos encontrar ocasionalmente para "jantar" e conversar: os pratos preferidos serão pseudociências, crendices, posmodernismo, mistificações e pensamento mágico, alguns, mera picaretagem, outros, equívocos notáveis. Todos evitáveis... portanto, brindemos! *** Alerta de Conteúdo Adulto: Neste blogue não achamos feio discutir religião.
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