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quarta-feira, 15 de abril de 2009

A falibilidade do Papa II

Mais algumas charges sobre a visita do Papa Bento XVI à África e seus comentários, já criticados em um post anterior, sobre o uso da camisinha para prevenir a AIDS. Contribuição da Liliane, direto de Montreal.



"Os preservativos agravam o problema da AIDS." Bento XVI
Obrigado Senhor! Teu papai não a usou!


Da utilidade da camisinha no combate à AIDS

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terça-feira, 7 de abril de 2009

Só um milhão de judeus...


Não foi engano. Dadeus Grings, arcebispo de Porto Alegre, teve 6 anos para pensar sobre suas declarações de 2003 e não mudou de opinião. No melhor estilo revisionista, descontextualizou o holocausto, minimizou a tragédia impetrada por seus ancestrais há quase 70 anos e ofendeu a todos aqueles que mantêm sua caixa craniana minimamente ocupada. Grings repetiu, na semana passada, exatamente o mesmo comentário feito em 2003 em artigo publicado em um portal católico. Disse ele, daquela vez:
Sem entrar na questão de número das vítimas, que tem muito de ideológica, é preciso reconhecer, como historicamente comprovado, que o nazismo provocou em torno de 22 milhões de mortes, sendo que os judeus participam desta cifra com cerca de 1 milhão. Portanto a grande vítima do nazismo não foram os judeus, mas os cristãos.
Não se sabe o número exato, mas beira os 60 milhões o total de mortos na segunda guerra mundial. Os católicos, diferentemente dos judeus, ciganos, homossexuais, e outras minorias, não foram mortos pela sua crença, etnia ou orientação sexual, mas por estarem envolvidos em uma guerra. Como diria Mino Carta, isso é do conhecimento até do mundo mineral. Até porque, considerando que de russos morreram mais de 20 milhões, foram os ateus uma das grandes vítimas da guerra.



Não me espanta um representante da igreja destilando seus preconceitos. Entre outras coisas, Grings defendeu a omissão (ele chamou de neutralidade) da igreja durante a segunda guerra (algum nazista foi excomungado pela sua igreja tão defensora da vida?) e durante a ditadura militar brasileira (vale a mesma pergunta sobre os torturadores). Foi anticientífico (condenou as pesquisas com células tronco) e antimulher (condenou o aborto). O que me espanta é ver, mesmo após tudo isso, os representantes da comunidade judaica reunidos com Grings celebrando a paz.

ADENDO (20.04.2009): invertendo a lógica de Dadeus, poderíamos perguntar: quais as religiões cujos membros foram responsáveis pelo maior número de mortos na Segunda Grande Guerra? Tirem suas próprias conclusões se seria esta uma pergunta honesta ou não.

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sábado, 4 de abril de 2009

A falibilidade do Papa

O Vaticano se disse chocado com as críticas que choveram sobre as declarações de Bento XVI sobre preservativos e AIDS: "É surpreendente, já que parece óbvio a qualquer Estado democrático que o Santo Padre e a Igreja são livres para expressar suas próprias opiniões", disse o porta-voz Federico Lombardi. Todos podem e devem ser livres para tanto, mas também devem ser responsabilizados pelo que dizem. Principalmente
quando, sob tais alegações de liberdade, costumam se esconder tentativas de limitações da liberdade do próximo (ver o episódio das células tronco, por exemplo), prática comum das religiões, e a católica não é exceção. As declarações do papa foram consideradas por líderes europeus como equivocadas, perigosas e irresponsáveis. Segundo a ministra da Saúde francesa, Roselyne Bachelot, Bento 16 "proferiu uma monstruosa mentira científica". Richard Dawkins disse que o papa ou é ignorante, estúpido ou malvado (wicked tem vários sentidos). A África tem 2/3 das pessoas infectadas atualmente no mundo. Em alguns países, a doença atinge 40% da população. Não há nenhuma dúvida (científica) de que o uso de preservativos diminui o risco de contágio, mas uma política eficiente de prevenção deve obviamente conter vários elementos, principalmente no que concerne à informação. Milhares de crianças são violentadas anualmente na África porque se acredita que sexo com virgens cura a AIDS. O Vaticano acredita, contrariamente às evidências, que os poros existentes nos preservativos deixam passar o vírus do AIDS. Com mitos como esses, é inadmissível que autoridades continuem a espalhar tamanha desinformação.

Dada então a vasta lista de equívocos, onde fica a famosa infalibilidade do papa? Obviamente isso mina a credibilidade da igreja católica, até porque existem religiões alternativas com um índice muito menor de falibilidade (quase nulo), sem falar na existência factual da sua divindade.

Seguem alguns cartoons ilustrativos...

(Jesus & Mo, original e traduzido)




(dica da Liliane, de Montreal)





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domingo, 22 de março de 2009

O Papa na África


A Igreja Católica, continuando sua saga recente de falar coisas inapropriadas para reafirmar sua agenda.

Tradução do cartoon:

- preservativos aumentam o problema da AIDS. Eu apóio a abstinência.

- ...da realidade.


via Friendly Atheist

PS: Não entendeu? Leia nossa postagem anterior aqui.


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quinta-feira, 19 de março de 2009

365.000 mortes desnecessárias: o custo de ser anticientífico

Este é o balanço macabro do governo do Sr. Thabo Mbeki como presidente da África do Sul: 350.000 mortes prematuras de seres humanos, inclusive muitos recém-nacidos que poderiam ter sobrevivido se recebessem o tratamento com antirretrovirais que protegem portadores do vírus da Síndrome de Imuno-Deficiência Adquirida (SIDA) bem como minimizam o contágio de nascituros a partir de suas mães durante o parto. Durante seu mandato, aquele governo rechaçou o consenso científico de que a SIDA é causada por um virus, o HIV, e que os medicamentos antirretrovirais podem salvar as vidas dos soropositivos. Tudo porque optou por abraçar - seja por ignorância, seja por "economia" - os pontos de vista de um pequeno grupo de cientistas dissidentes que propõem outras causas para esta terrível doença, os chamados "Negacionistas da SIDA", um movimento majoritariamente anticientífico. Aparte o interessante debate acadêmico em torno das causas da SIDA, que é um debate cirntífico e deve prosseguir, não se pode tergiversar sobre fatos conhecidos quando se trata de vidas humanas em jogo: o vírus HIV foi identificado como agente da SIDA e mesmo que hajam outros fatores causais ou agravantes para essa doença, se dispomos de ferramentas farmacológicas para tratá-la, é sempre preferível usá-las. A vida vem sempre em primeiro lugar. Felizmente o povo sul-africano, organizado numa grande campanha, conseguiu forçar uma mudança naquela "política", mas ficaram as perdas humanas.

No artigo a seguir, Peter Singer, filósofo australiano, comenta a absurda situação. O editorial de hoje do diário mexicano "La Jornada" complementa o assunto relatando o que o Papa Ratzinger andou dizendo em sua visita à África...

Como dizia Goethe, "nada é mais terrível que ver a ignorância em ação"...


* * *

El trágico coste de ser acientífico
Peter Singer - Project Syndicate

Durante su mandato como presidente de Sudáfrica, Thabo Mbeki rechazó el consenso científico de que el SIDA es causado por un virus, el VIH, y que los medicamentos antirretrovirales pueden salvar las vidas de los seropositivos. En lugar de ello, abrazó los puntos de vista de un pequeño grupo de científicos disidentes que sugerían otras causas para el SIDA.

Mbeki siguió manteniendo tercamente esta opinión a pesar de que la evidencia contra ella se fue haciendo abrumadora. Cada vez que alguien - incluso Nelson Mandela, el heroico luchador de la resistencia contra el apartheid que se convirtiera en el primer presidente negro de Sudáfrica - cuestionó públicamente los puntos de vista de Mbeki, sus partidarios lo denunciaban con saña.

Mientras Botswana y Namibia, vecinos de Sudáfrica, proporcionaban antirretrovirales a la mayoría de sus ciudadanos infectados por VIH, no ocurría así en la Sudáfrica gobernada por Mbeki. Un equipo de investigadores de la Universidad de Harvard ha estudiado las consecuencias de esta política. Utilizando supuestos conservadores, estima que si el gobierno de Sudáfrica hubiera proporcionado los medicamentos adecuados, tanto a pacientes con SIDA como a mujeres embarazadas con riesgo de infectar sus bebés, se habrían evitado 365.000 muertes prematuras.

Esa cifra es un indicador revelador de los altísimos costes de rechazar la ciencia o hacer caso omiso de ella. Es comparable con las pérdidas de vidas ocurridas en el genocidio de Darfur, y representa cerca de la mitad de víctimas de la masacre de tutsis en Ruanda en 1994.

Uno de los incidentes más importantes que dieron forma al rechazo mundial al régimen segregador sudafricano fue la masacre de Sharpeville en 1961, en que la policía disparó contra una muchedumbre de manifestantes negros, matando a 69 e hiriendo a muchos más. Mbeki, al igual que Mandela, luchó activamente contra el apartheid. Sin embargo, el estudio de Harvard muestra que es responsable de las muertes de 5000 veces más sudafricanos que la policía sudafricana blanca que disparó en Sharpeville.

¿Cómo juzgar a un hombre así?

En su defensa se puede decir que no tenía la intención de matar a nadie. Parece haber creído genuinamente -quizás todavía lo cree- que los antirretrovirales son tóxicos.

También podemos otorgar que Mbeki no tenía malas intenciones contra quienes sufren de SIDA. No deseaba hacerles daño y, por esa razón, deberíamos juzgar su carácter de manera diferente a quienes sí tienen ese fin, ya sea por odio o para beneficiar sus propios intereses.

Sin embargo, las intenciones no bastan, especialmente cuando hay tanto en juego. Mbeki es culpable, no por haber adoptado inicialmente una visión sostenida por una ínfima minoría de científicos, sino por haberse aferrado a ella sin permitir que se la sometiera a prueba en un debate justo y abierto entre expertos. Cuando el profesor Malegapuru Makgoba, el principal inmunólogo negro de Sudáfrica, advirtió que las políticas del presidente harían de Sudáfrica el hazmerreír del mundo científico, la oficina de Mbeki lo acusó de defender ideas occidentales racistas.

Desde la salida de Mbeki en septiembre, el nuevo gobierno sudafricano de Kgalema Motlanthe ha dado rápidos pasos para implementar medidas eficaces contra el SIDA. El ministro de salud de Mbeki, que se hizo conocido por sugerir que el SIDA se podía curar mediante ajo, jugo de limón y betarragas, fue despedido raudamente. La tragedia es que el Congreso Nacional Africano, el partido político predominante de Sudáfrica, dependía tanto de Mbeki que no fue depuesto hace varios años, como debería haber sido.

Las lecciones de esta historia son aplicables a siempre que la ciencia es pasada por alto en la formulación de políticas públicas. Esto no significa que siempre que haya una opinión mayoritaria en la comunidad científica, ésta será correcta. La historia de la ciencia muestra claramente lo contrario. Como los demás seres humanos, los científicos pueden ser influidos por una mentalidad de rebaño y el temor a verse marginados. El error culposo, especialmente cuando hay vidas en juego, no es estar en desacuerdo con los científicos, sino rechazar la ciencia como método de investigación.

Mbeki debe de haber sabido que, si sus opiniones poco ortodoxas acerca del SIDA y la eficacia de los antirretrovirales fueran incorrectas, sus políticas terminarían conduciendo a una gran cantidad de muertes innecesarias, y saber eso lo ponía bajo la mayor obligación de permitir que toda la evidencia se presentara y examinara de manera equitativa, sin temores ni favoritismos. Puesto que no fue así, Mbeki no puede eludir la responsabilidad de cientos de miles de muertes.

Ya seamos personas individuales, jefes de grandes empresas o líderes de gobierno, hay muchas áreas en las que no podemos saber lo que debemos hacer sin contar con un cuerpo de evidencia científica que nos sirva de guía. Mientras más responsabilidad tengamos, hay mayores probabilidades de que sean trágicas las consecuencias de tomar una decisión errónea. De hecho, cuando vemos las consecuencias posibles del cambio climático causado por las actividades humanas, la cantidad de vidas humanas que se pueden perder por decisiones erróneas empequeñece la cifra de vidas perdidas en Sudáfrica.

Publicado originalmente en URL: http://www.project-syndicate.org/commentary/singer44/Spanish


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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Onde vai parar a separação Igreja-Estado?

Um dos pilares do sistema Republicano é a laicidade do Estado. Na Constituição Brasileira de 1988 isto está assegurado no Art. 19:

É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;


Pois nosso presidente acaba de assinar um novo tratado com o papa Bento XVI no qual , mesmo ainda dependendo de aprovação pelo Congresso (o que só depende do poder de fogo dos deputados e senadores da Universal... saberemos, enfim, quem é maioria lá!) introduz pelo menos duas novidades preocupantes: (1) não só exclui os religiosos profissionais do mundo do direito do trabalho, como também (2) tenta direcionar a introdução de ensino religioso no ensino público (um tema ao qual poucos de nós temos dado suficiente atenção) estabelecendo a hegemonia de um dos credos - o católico - sobre os demais (quando fala em "ensino religioso", complementa dizendo "ensino religioso, católico e de outras confissões"...

Muitos não sabem, mas o ensino religioso é facultado no ensino público brasileiro pela Constituição Federal Brasileira, e deve ser oferecido no horário normal das aulas - competindo, portanto, em tempo com as demais matérias; é o que diz o parágrafo 1o. do Art. 210:

O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental.

Conheça aqui a íntegra do tal acordo.

Não só estão mais uma vez a desrespeitar a Constituição, estão a fazer-nos retroceder a eras pretéritas, onde a mais antiga monarquia absoluta (mesmo que eletiva) do planeta - o vaticano - ainda consegue determinar como cada um de nós deve viver!

E nós, vamos ficar quietinhos?


A Carta e o Vaticano
Mauricio Dias
Carta Capital (seção: Rosa-dos-Ventos) - 12/01/2009

A crise do mercado abafou o debate sobre a decisão do presidente Lula de, em novembro de 2008, durante visita ao Vaticano, assinar com o papa Bento XVI o tratado que regula o estatuto jurídico da Igreja Católica no Brasil. A oficialização, no entanto, ainda depende da aprovação do Congresso Nacional.

A sociedade civil foi apanhada de surpresa. Mas há uma forte reação, embora desprezada pelos meios de comunicação, que, como se sabe, obedecem quase todos, quase cegamente, aos mandamentos da Santa Sé. A decisão, no entanto, não pode ficar à margem do debate.

“Há pelo menos dois pontos absolutamente controversos no acordo. Um sobre as relações trabalhistas entre os padres e as dioceses, e outro, não menos importante, sobre o ensino religioso nas escolas públicas”, alerta o antropólogo Emerson Giumbelli, professor de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ao definir que não há vinculo trabalhista na Igreja, o acordo põe a questão inteiramente fora de debate e cria um privilégio. Caberia à Justiça do Trabalho, por exemplo, analisar uma das questões que Giumbelli levanta: “Por que o vínculo religioso caracteriza a ausência de vínculo empregatício?”

Em outras palavras, o Estado brasileiro abrirá mão de definir a natureza dessas relações, indiferente às leis trabalhistas.

O problema cresce em importância quando entra em discussão o artigo 11 (dos vinte artigos que compõem o acordo), que trata do ensino religioso. Os termos utilizados no documento estão na Constituição Federal (artigo 210) e na Lei de Diretrizes e Bases (artigo 33). Emerson Giumbelli, que também colabora com o Instituto de Estudos da Religião (Iser), discorre sobre o problema:

“A Constituição refere-se genericamente ao ensino religioso. O texto do Acordo, no entanto, estabelece: ‘ensino religioso, católico e de outras confissões’. Há dois problemas aí. O primeiro é que no Acordo apenas uma das confissões, a católica, legisla sobre as outras. O segundo é que ele insinua a maior pertinência de um modelo confessional de ensino religioso, no qual os alunos são separados de acordo com seus credos e os docentes e conteúdos programáticos passam pelo crivo de autoridades religiosas”.

A inclusão, no texto do Acordo, da palavra “católico” desvirtua o texto da Constituição.

Por trás da questão há muitas perguntas ainda sem resposta. A principal delas: há necessidade do ensino religioso como disciplina na escola pública? Giumbelli lembra que o tratado é mais danoso por intervir e antecipar o fim de um debate complexo, inconcluso.

Estando na Constituição o tema não está fechado ao debate. Mas, se o Acordo entrar em vigor, a discussão morre. Roma locuta, causa finita.


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