
Basta ser ateu ou é preciso algo mais? A recente onda de livros ateus (Dawkins, Dennet, Hitchens e Harris) e a superexposição dos autoproclamados "quatro cavaleiros do apocalipse" pode acabar encobrindo a existência de consistentes argumentos lógicos e filosóficos, alguns já bastante antigos, e que negam o próprio CONCEITO de deus, colocando-nos um passo antes da preocupação em ter de "provar" algo.
No artigo "Deus não existe: sem a menor dúvida, Sr. Dawkins", John Brown aborda a fraqueza inerente do tipo de argumentação que esses polemistas anglosaxões utilizam, centrado numa análise eminentemente epistemológica (escassez de provas empíricas) e desconhecendo (na maioria dos casos) a tradição de análise lógica e mesmo ontológica que também tem muito a dizer sobre a "hipótese deus": ela não seria apenas "muito pouco provável" (o que ainda a deixa "provável"...), mas sua formulação seria mesmo inconsistente, ou seja, seria uma falácia lógica:
"[cuando dice] Dawkins que « Si se acepta lo argumentado en este capítulo, la premisa fáctica de la religión -la Hipótesis de Dios- resulta insostenible. Dios, casi con toda certeza, no existe». El problema es que lo insostenible sólo desde un punto de vista epistemológico, no lo es desde un punto de vista ontológico ni práctico. Aunque, para cualquier biólogo serio, la hipótesis inmanentista darwiniana arruine definitivamente el creacionismo como hipótesis que oriente los trabajos de su disciplina, sigue existiendo -pues de probabilidades se trata-, la posibilidad muy poco probable de que Dios exista. Basta esta pequeña probabilidad para que la religión y, como decía Marx, « die ganze alte Scheisse », toda la vieja mierda del temor y el temblor, de la culpa y el pecado regresen y amarguen la vida a los mortales."
E Brown prossegue:
"Para deshacerse del temor de Dios no se puede prescindir de una crítica de este supuesto « concepto ». No se trata de afirmar con Russell y Dawkins que no hay bastantes pruebas, sino de decir con Spinoza que el concepto religioso de la divinidad no es consistente. Se trata, en otros términos de reivindicar lo que llamaba Bayle, el « ateismo de sistema » de Spinoza."
Claro que é válida a tentativa de reeditar a crítica aos teísmos e credos com base no imenso acúmulo e na refinada metodologia da ciência (e eu sou dos que se divertem
muito lendo esses textos-bravata todos!), mas ficar apenas nesses autores pode levar a uma visão deformada do debate acerca da existência de deus, um dos mais antigos passatempos da humanidade (recordemo-nos, por exemplo, do musical de Mel Brooks em "A História do Mundo, parte 1"...).
Piadas à parte, recomendo a leitura do artigo de Brown (está em espanhol) para um resgate de abordagens como a de Baruch Spinoza (acreditem, ele também era "bento"):
El dispositivo de la Etica consiste no en negar la plausibilidad de la hipótesis de un Dios transcedente como explicación del orden del universo, ni siquiera en negar la existencia de Dios, sino en producir la implosión del concepto de Dios afirmando a la vez que Dios es substancia y es infinito. El Dios sustancia infinita no puede ser el rector del universo, pues no se distingue realmente de éste."
"tales ideas, que nos son presentadas como dogmas, no son precipitadas de la experiencia ni conclusiones del pensamiento: son ilusiones, realizaciones de los deseos más antiguos, intensos y apremiantes de la Humanidad. El secreto de su fuerza está en la fuerza de estos deseos."
São algumas reflexões para a comunidade atéia considerar.
muito lendo esses textos-bravata todos!), mas ficar apenas nesses autores pode levar a uma visão deformada do debate acerca da existência de deus, um dos mais antigos passatempos da humanidade (recordemo-nos, por exemplo, do musical de Mel Brooks em "A História do Mundo, parte 1"...).Piadas à parte, recomendo a leitura do artigo de Brown (está em espanhol) para um resgate de abordagens como a de Baruch Spinoza (acreditem, ele também era "bento"):
El dispositivo de la Etica consiste no en negar la plausibilidad de la hipótesis de un Dios transcedente como explicación del orden del universo, ni siquiera en negar la existencia de Dios, sino en producir la implosión del concepto de Dios afirmando a la vez que Dios es substancia y es infinito. El Dios sustancia infinita no puede ser el rector del universo, pues no se distingue realmente de éste."
Brown também resgata o esquecido enfoque ateu de Sigmund Freud, que merece sempre ser revisitado:
"tales ideas, que nos son presentadas como dogmas, no son precipitadas de la experiencia ni conclusiones del pensamiento: son ilusiones, realizaciones de los deseos más antiguos, intensos y apremiantes de la Humanidad. El secreto de su fuerza está en la fuerza de estos deseos."Embora tais abordagens estejam "pairando" nos textos de Dawkins e Hitchens, por exemplo, elas parecem nunca receber a devida atenção, em parte por desconhecimento do assunto, o que é uma pena, pois se perde uma excelente oportunidade de difundir tais idéias. Claro que esses livros têm imenso valor e abordam outras questões de maneira exemplar, por exemplo, os aspectos psicoafetivos de assumir-se ateu diante das pressões sociais e culturais de sua sociedade (ainda que num enfoque por vezes ingênuo).
Essa tendência de abordar um assunto com pretensões à totalidade, mas sem relevar - seja por desconhecimento, seja por oportunismo - as contribuições anteriores dando-lhes o devido crédito, é o que chamo de "neoateísmo inculto". É uma tendência comum nestes tempos de cultura de massas, quando a vaidade "pop" de alguns (claro que não são todos) leva-os a escrever como se tivessem sido os primeiros a abordar o assunto...
Neste sentido, vejo um irônico paralelo entre uma releitura spinoziana desse neoateísmo pop e a crítica devastadora que Rudolph Carnap, um dos fundadores do Círculo de Viena, fez à metafísica de Heidegger em seu clássico "A eliminação da metefísica pela análise lógica da linguagem" (1957): neste último, demoliu-se o edifício verborréico da chamada "metafísica" pela análise do discurso em termos meramente lógicos; em nosso caso, vemos que uma crítica pretensamente demolidora da concepção teísta corre o risco de deixar brechas imensas exatamente por ignorar abordagens pretéritas que... ressaltam a análise lógica do discurso!
São algumas reflexões para a comunidade atéia considerar.
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