segunda-feira, 6 de abril de 2015

Medicalização da Vida

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 A transformação de situações normais da vida em problemas médicos, pode estar estimulando o consumo excessivo de produtos e serviços de saúde, incluindo aqueles sem qualquer base científica. Na Coluna Observatório deste mês de abril de 2014, da revista Scientific American Brasil (edição #155), Jorge Quillfeldt discute a Medicalização da Vida, uma tendência recente que cada vez abrange mais e mais aspectos de nossos quotidianos e que pode ter consequências inesperadas.


Leia, a seguir, uma versão ampliada daquela publicada na revista.





 Medicina Científica X Medicalização da Vida:
limites à criatividade?

Jorge A Quillfeldt [escrito em 18fev2015]
Coluna Observatório - Sci.Am.Br. # 155

“Pessoas saudáveis são pacientes que ainda não sabem que estão doentes”, explica o manipulador Doutor Knock na peça em que consegue convencer todos os cidadãos de uma cidade que estão doentes, passando a controlá-los. Jules Romains não sabia, em 1923, que sua comédia Knock ou Le Triomphe de la Médecine anteciparia, de certo modo, uma das características mais emblemáticas de nosso tempo, a medicalização progressiva de todos os aspectos da vida.

Vivemos um momento privilegiado da história, em que a medicina moderna atingiu um nível de conhecimentos e recursos tecnológicos incomparável. Com criatividade, nosso conhecimento conquistou terreno apropriando-se até mesmo de áreas da vida que durante séculos estiveram fora do alcance de qualquer intervenção que não fosse a espiritual ou religiosa – como era o caso da maioria das doenças psiquiátricas. Ainda há muitos problemas sem solução, mas não custa indagar: há algum limite para essa criatividade continuar lançando suas redes?

Medicalizar consiste em “passar a definir e tratar algo como um problema médico”, ou seja, direcionar conhecimentos e recursos técnicos da medicina para tratar algo que antes não era abrangido pela disciplina. É natural que, à medida que a ciência avance, novas patologias sejam detectadas (como a depressão ou o autismo, para citar dois exemplos bem atuais), e outras, reinterpretadas e descartadas (como a histeria ou mesmo a homossexualidade – considerada uma doença até poucas décadas atrás). Avanços tecnológicos permitem não só diagnosticar melhor, mas também diagnosticar mais, mesmo condições que não coloquem a vida em risco ou comprometam sua qualidade. O problema reside precisamente na facilidade com que novas doenças podem ser hoje “criadas”, quando situações antes tidas como meras variações da normalidade acabam patologizadas, algumas de forma justificada, outras, não.

O termo medicalização começou a ser usado nos anos 1970 principalmente no campo da sociologia, por autores como Peter Conrad*, Ivan Illich e o psiquiatra Thomas Szasz, que apontavam sua proeminência especialmente no campo das enfermidades psiquiátricas, denunciando-a como uma forma de controle social do comportamento e subjetividade individuais, idéia que já vinha de Foucault (1965), onde a medicina estende sua autoridade a todos os domínios da existência quotidiana. Illich, um dos antecipadores da chamada medicina baseada em evidências, é o mais contundente, e fala de três níveis de danos causados pela medicalização da vida: a iatrogênese clínica, quando o paciente sofre danos causados por tratamentos inefetivos, tóxicos ou pouco seguros; a iatrogênese social, que é a medicalização da sociedade submetida a uma explosão de não-doenças demandando tratamento, e a iatrogênese cultural, que é a consequente destruição das formas sociais tradicionais de se lidar com os problemas originais.

Erik Parens fala em “boas” e “más” formas de medicalização, reservando o termo supermedicalização para a segunda categoria e observando que cada caso merece exame em separado. Para esse autor, a medicalização incorre em três erros: confundir categorias (coisas da vida X “doenças”), criar necessidades além da capacidade de financiamento dos governos e minar nossas subjetividades , obscurecendo a compreensão das (eventuais) causas sociais que podem estar por trás do sofrimento em questão. Entre os casos positivos, podemos citar a introdução da pílula anticoncepcional, que permitiu uma verdadeira revolução comportamental. Um exemplo negativo foi a demonização do mau hálito no começo do século XX, quando foi rebatizado como... halitose (uma "doença" que não existe): mediante notável campanha publicitária, promoveu-se a venda de uma nova “necessidade”, o antisséptico bucal. Hoje a lista de “doenças” questionáveis não pára de crescer, indo desde características pessoais estigmatizáveis (“calvície”, “síndrome das pernas inquietas”, “timidez”, sem falar em detalhes estéticos como “orelha de abano” ou variantes da "dismorfofobia"), situações de vida (“tristeza”, “luto”) e mesmo consequências do envelhecimento (“disfunção erétil”, “deficiência de testosterona”, “acromotriquia” - o cabelo grisalho, e mesmo, até certo ponto, a “osteoporose”). Hoje talvez estejamos vivendo o próprio apogeu da “má” medicalização – a chamada “mercantilização das doenças” (disease mongering), como provam os absurdos níveis de consumo de fármacos como a ritalina (especialmente entre escolares, muitos sobrediagnosticados com TDAH) e antidepressivos. Remédio é chiclete.

Uma vez que a medicalização ajuda, de fato, a criar novos mercados, ela pode ser considerada (tecnicamente) uma forma de inovação: "criar novos mercados" é um dos caminhos apontadas pelo introdutor do badalado conceito, Joseph Schumpeter, em 1912. Deste modo, no contexto de uma sociedade regida pela lógica econômica, a atual obsessão pela "inovação" talvez explique por que ainda discutimos tão pouco a medicalização da vida.

http://www.ploscollections.org/article/fetchObject.action?uri=info%3Adoi%2F10.1371%2Fimage.pcol.v07.i02.g001&representation=PNG_M
Mas qual é o problema de a medicina abranger cada vez mais aspectos de nossas vidas? Do nascimento à morte, passando pelo desenvolvimento, vida sexual, gestação e parto, climatério e envelhecimento, existem “remédios” que aplacam sintomas indesejados, mas, ao mesmo tempo, isso contribui para o desaparecimento de hábitos culturais preexistentes que há gerações têm permitido a maior parte das pessoas lidar com tais situações sem demasiado sofrimento psicológico e/ou físico. Assim, desde que não seja uma afecção incontrolável com risco físico real – principalmente em se tratando de doenças psiquiátricas leves – a medicalização rouba autonomia e poder às pessoas, que acabam delegando decisões básicas acerca de suas vidas, não à reflexão e à experiência, mas a “substitutos” compráveis – tratamentos e medicamentos. É, de certo modo, o fim da subjetividade.

Mas há pelo menos dois outros problemas graves resultantes dessa tendência: o aumento nos custos da saúde – que acarreta maior elitização do atendimento, e os efeitos da exposição excessiva (ou desnecessária) a ambientes altamente contaminados, os hospitais, que deveriam ser utilizados apenas nos casos mais necessários. São os chamados efeitos iatrogênicos – “de origem médica” (como também existe  o hermético nosocomial – “relativo ao ambiente hospitalar”). Não se trata necessariamente de “erro médico” ou “má prática”, mas, antes, das consequências previsíveis de uma concepção consumista de serviço médico, especialmente por parte dos pacientes, que os expõe ao risco. Os próprios médicos têm dificuldade em contornar essa percepção e orientar seus pacientes.

Neste ponto, cabe alertar para os arautos da enganação e da pseudociência, tão pródigos em brandir alguns desses mesmos argumentos acima, porém sempre tentando pintar a medicina como uma espécie de “carnificina voltada ao lucro cego”... Propõem, em seu lugar, uma tal de medicina alternativa, que seria não só "mais acessível" ao público (pois mais "barata", ainda que estranhamente ... não gratuita), como também "mais segura" e mesmo "sem riscos"...

Nada mais enganoso, pois esse campo não passa de uma coleção heterogênea de teorias sem qualquer fundamento empírico. Pura pseudociência. A moderna medicina, além de ser Baseada em Evidências não possui “alternativas”, embora tenha, sim, sérios desafios pendentes, como o da distribuição mais justa dos benefícios científico-tecnológicos e uma boa divulgação de seu funcionamento. O incongruente discurso propagandístico da medicina alternativa, pela semelhança que tem com sua contraparte científica, contribui a deslegitimar análises críticas como a que aqui tentamos avançar, já de por si, bastante complexas.

Pergunto, por fim, se a enorme sedução atual da medicina alternativa não seria uma reação espontânea de uma sociedade consumista e desinformada à crescente medicalização da vida? Convictos (pelo marketing) de que "qualquer traço indesejado pode ser uma espécie de doença tratável ou medicável", mas limitados no acesso a tais recursos (pelas restrições financeiras), a percepção popular dessa necessidade impõe a busca de... alternativas!

Se for verdade, é irônico que mais medicina acabe estimulando menos ciência...


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(*) Conheça o livro "The Medicalization of Society -On the Transformation of Human Conditions into Treatable Disorders" de Peter Conrad (pode ser lido aqui).

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Quer saber mais?

    (pontos e contrapontos)

https://rmprasad1213.files.wordpress.com/2014/03/medicalization.jpghttp://4.bp.blogspot.com/_Mh2m-kT47cE/TLiRSxUIeNI/AAAAAAAAAB8/bMzhBekA-pI/s1600/hysterical.png


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(novos enlaces e ilustrações: 14abr2015; rev. 21jan2016 )

3 comentários:

Chico disse...

Acho que sou um utilitarista, e já era assim antes de saber que essa postura tinha um nome. Sempre acreditei que as melhores decisões e os mais justos julgamentos éticos precisam ser apoiados pela melhor quantificação objetiva que se puder fazer do custo e do bem estar total produzido pelas possíveis alternativas, visando a reduzir o primeiro e aumentar o último.

Por causa do meu utilitarismo amador, sempre vi com desconfiança as críticas à medicalização. "Se faz bem (bem-estar), que mal tem?". Ainda me lembro de um Fronteiras da Ciência com a participação do Renato Flores (um participante de fato memorável) em que comentaram que ele tem uma camiseta que diz que a felicidade é química (lembrei corretamente o causo?), numa provável crítica à exclusão do materialismo científico da discussão das "questões humanas".

Entretanto, neste texto o autor conseguiu fugir da infame falácia do apelo à natureza (appeal to nature), que quase sempre permeia esse tipo discussão. Coloca de maneira convincente as desvantagens da "supermedicalização", onde eu destacaria a padronização comportamental do ser humano, contrastando com a necessidade de variabilidade das ideias e das coisas para a evolução da sociedade. O que me lembra de mais um episódio do Fronteiras da ciência, sobre psiquiatria, acho, em que se comentou o quanto o contexto social determina o que é ou não disfuncionalidade (doença), substituindo a objetividade científica.

Acho possível também traçar um paralelo entre os males da supermedicalização expostos aqui e o fenômeno da baixa tolerância à frustração, bastante discutido por pedagogos e psicólogos: quando as pessoas dispõem de meios abundantes de evitar dores menores, não desenvolvem a robustez psicológica para enfrentar saudavelmente os obstáculos inevitáveis na vida.

Jorge Quillfeldt disse...

Legal teu comentário, Chico, fico muito honrado com tuas palavras! Acho que foste ao fulcro do problema, especialmente no exemplo final, que também é fruto de uma progressiva infantilização da sociedade promovida por interesses econômicos - crianças "consomem" tudo sem pensar. E não há nenhuma "teoria conspiratória" aí, apenas autoorganização coletiva sob influência (por ora bastante bem sucedida) dessa avalanche de "marquetchin": entre outras estratégias, cabe aos críticos amadurecer ferramentas mentais que empoderem os concidadãos no enfrentamento da enganação e dos abusos consumistas, que às vezes fazem tanto ou mais mal que as pseudociências. O texto ainda tem muitas imperfeições, é evidente, mas fico feliz de ter conseguido abrir essa pequena brecha e conseguir delinear o problema (mesmo que seja para uma pessoa, por ora!). É um problema que me incomoda há anos, mas que é tão difícil de verbalizar sem cair nas tantas armadilhas que há.

Chico disse...

George, gostei do teu texto porque atendeu exatamente a mesma expectativa que me faz acompanhar assiduamente este blog e o Fronteiras da Ciência: escapar das linhas de pensamento óbvias e simplórias. Acredito que minhas ideias tenham amadurecido bastante com o conteúdo produzido por vocês neste últimos anos. O Fronteiras está sempre presente entre minhas sugestões de conteúdo, tanto que dois colegas de trabalho se converteram em ouvintes assíduos.

Sobre o "marquetchin", eu não vejo com simpatia a abordagem que pratica com as pessoas frágeis e influenciáveis, sobretudo com as crianças, abordadas tão diretamente e de forma tão onipresente que os pais jamais poderiam protegê-la sem escondê-las num buraco escuro. Por outro lado, creio que habito uma posição mais liberal que a tua no espectro político (num sentido clássico, econômico, porque eu acredito que sejamos igualmente "intransigentes" na defesa das liberdades civis), por isso vejo com igual antipatia as proibições frequentemente cogitadas para "proteger" os cidadãos. Em mais uma fuga dos bordões que tanto me incomodam, lembraste da responsabilidade que as pessoas dividem com o marketing pelas coisas que lhes entram na cabeça. Tão melhor seria, como colocas, capacitar as defesas da mente, afinal penso que o paternalismo exacerbado, além de flertar com a tirania e a ortodoxia, não pode nos proteger de todas as influências perniciosas que cruzam nossos caminhos, às vezes até sem má intenção. Concordo contigo, embora não sei se exatamente nos mesmos termos, que estamos ficando meio bobos.