segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Blogosfera, nos domínios do ruído infindo

Do you like this post?
"Algumas pessoas são homossexuais.
Supere essa!"

Uma surpreendente informação veiculada na blogosfera cética nacional acabou criando a oportunidade de postar a imagem acima com o simpático ator inglês "Sir" Ian McKellen, mais conhecido como o Magneto dos X-Gentes ou o mago Gandalf daquele enfadonho conto anelar (sim, ele é gay e militante do Stonewall).

Tudo porque um novo blogue chamado Central Ceticismo, que se propunha a ser o "ponto de encontro de céticos, ateus, agnósticos e afins" (?) e que vem, há cerca de um mês, convidando muitos de nós a integrar sua lista de blogues e çáitchis, resolveu inovar. Na verdade, não passava de uma reunião de feeds sem nenhum critério.

Até agora.

Agora eles resolveram fazer a primeira coisa original por lá: decidiram remover nada menos que o Bule Voador de sua lista sob a incrível alegação de que "ele vem se tornando um blog GLS"! Parece brincadeira, mas não é. E arrematam com determinação: "E nós da Central Ceticismo não apoiamos a homossexualidade".

Se olharem por lá, ainda acharão a observação (ver abaixo). Não parece que estejam muito preocupados com a debandada promovida pelo boicote conclamado pelos parceiros do Bule.


A propósito, nós também já solicitamos desligamento da lista deles, por razões elementares demais para demandarem maiores explicações. E por que o tom da "regra" declarada denuncia, ou ignorância de alguém muito jovem e despreparado, ou fachada para um monitoramento por parte de alguma seita religiosa dessas que têm a "cura" para a homossexualidade (entre outras "missões"). Enfim, não sabemos quem (é)são o(s) promotore(s) desse blogue-feed, e não se encontra informação de nada em parte alguma. Mas já sabemos que são homofóbicos.

Assim, talvez seja melhor garantir nossa exclusão postando fotos como as que encabeçam esta postagem...

Como vários blogues céticos já estão deitando tinta de indignação com o ocorrido, que deve ser o assunto desta semana, aproveito para explorar outro ângulo da questão. Acho que somos, em parte culpados por termos nos deixado enganar. Nossa indignação é fruto de uma certa ingenuidade em termos acatado esse blogue-feed como um igual sem maiores informações (bem, o Bule ainda estava avaliando). Como disse, não se encontra informação em parte alguma, não aparece nada no "about". Muito estranho, não?

Talvez não tão estranho. Meu palpite é que esse blogue-feed, sem sal, sem estrutura, e até o momento, sem muito critério, seja obra de algum(a) jovem adolescente em plena erupção hormonal, sublimando suas emoções, possivelmente imaginando como isso irritaria seus pais... Ei, nada contra jovens blogueiros que fazem produções sérias e maravilhosas! Mas a internet tem essa faceta do anonimato, capaz de inspirar desde frases de banheiro até os lamentáveis fêiques usados em massa nas múltiplas comunidades "sociais" que proliferam como fungos, consumindo cada vez mais tempo precioso das pessoas (eu prefiro pensá-las como "pseudo-sociais", pois não têm qualquer contacto físico). Qualquer um pode criar qualquer coisa e posar do que bem entender na grande rede hoje. A propósito, não sei se aquele negócio de Second Lifeacabou dando certo (pelo menos no Brasil), mas se não deu é por que a redona, com essas características atuais, já permite qualquer um ter sua "identidade secreta" e brincar de Bruce Wayne. A atual internet já é uma "segunda vida" para muita gente. No mau sentido, digo. Haja pano para a manga dos psicanalistas!

É bem verdade que essas ferramentas incríveis, em que pese o ônus do anonimato, pelo menos vieram democratizar a comunicação, em todos os níveis, como nunca antes se viu (democratizar pelo menos para aquele minúsculo percentual da humanidade que consegue sentar na frente de um computador com quantidade suficiente de proteínas para poder pensar, não custa enfatizar!). Assim, temporariamente teríamos de tolerar todo espectro da estupidez humana desfilando em frente de nossos olhos (incluído o infantilóide critério homofóbico acima), pois essa seria uma fase de transição. Tomara que no fim do túnel haja luz!

Desde antes da WWW, quando somente trocávamos e-malas - deu para notar que sou da velha guarda, certo? - já havia essa preocupção, e se falava em regras de netiqueta, algo que já não vejo mais sendo muito comentado. Nas redes ditas "sociais", além da neoortografia minimalista (ou seria neotaquigrafia fonética?), abandonou-se a esperança de qualquer "etiqueta" e reina o caos das opiniões instantâneas jogadas sem pensar, da expressão pura e simples, sem qualquer elaboração, do aqui-e-agora, enfim, um naodadaísmo de facto... Reina, sobretudo, a mal-criação (diferente da ironia ou do deboche, esta é unidimensional e simplesmente grosseira). Não é a toa que "gangues" rivais se insultam mutuamente e depois se encontram fisicamente para acertar as contas, agora com chumbo, não bytes. Pois bem, neste ambiente, onde se encoraja a ultraespontaneidade e a superficialidade - quiçá o apogeu e a glória da sociedade de consumo! - é de se esperar que apareça todo tipo de farsa. O blogue-feed Central Ceticismo parece ser um bom exemplo disso.

O que falta é uma nova cultura de convívio cibernético. Não faço o gênero caga-regras, portanto não quero propor nada muito radical, nenhum tipo de policiamento ou supressão. É assim, aliás, que sempre agimos neste blogue, sem qualquer moderação nos comentários - são totalmente livres - apesar de nossa ocasional clientela troll.

Minha sugestão é que ignoremos e talvez denunciemos qualquer iniciativa nova que seja anônima, porque não faz sentido céticos, científicos e racionalistas... anônimos! Não no Brasil, pelo menos. É mero bom senso exigir que um novo blogue ou çáitchi cético - e sejam bem vindos tod@s! - tenha, como critério de largada, rosto(s), nome(s), e-mala(s) e outras formas de confirmar a validade do projeto. Muito lixo seria assim evitado, sem grande estresse.

Nossos ocupados neurônios agradecem.

16 comentários:

Ronaldo Paesi disse...

Oi jorge. Interessante a ênfase na transmissão de informação via internet. Acho que é uma ferramente extremamente útil contra uma mídia enganosa e manipuladora. Isso quando bem filtrada, o que o texto deixou claro.

Vi um documentário interessante chamado WikiRebels, falando sobre a WikiLeaks que achei muito interessante.

Pode ser encontrado aqui, http://docverdade.blogspot.com/

Existem vários outros documentários bons nesse endereço como, South of the Border, do diretor Oliver Stone. Fala de muita coisa que a mídia oculta ou manipula para manter certas coisas exatamente como são.

Entretanto, no mesmo endereço precisamos ser cuidadosos. Existem documentários sobre cura do câncer baseados unicamente na nutrição (O Milagre de Gerson). Não vou dar nenhuma opinião pois não assisti esse, mas acho que seria um assunto interessante até mesmo para o Fronteiras.

Se alguém souber de algo para adiantar sobre o assunto (ou alguma outra coisa que coloquei no comentário) seria legal.

Abraços.

Ronaldo Paesi disse...

Um pouco depois de fazer o comentário acima, me deparei com uma demontração ótima sobre a mídia manipuladora (ou muito desinformada).

http://adagadeoccam.blogspot.com/2010/12/acha-e-bom-perceber-que-midia.html

Jobson Coutinho disse...

A ditadura gay já começou?
O que tem de errado em alguém se expressar livremente que não apoia o homossexualismo???? "Não apoiar" não significa "ser contra".

Kentaro Mori disse...

Professor, vale notar que em seus primórdios o CeticismoAberto era mantido de forma anônima, e apenas depois de anos passei a usar um pseudônimo -- revelei a alguns colegas minha identidade -- para somente em 2005 por fim revelar minha identidade publicamente.

Quando comecei a participar de fóruns de discussão pela rede ainda era menor de idade. Quando comecei a publicar o CeticismoAberto mal havia chegado à maioridade e não queria me comprometer nem a ninguém.

A anonimidade é um elemento a ser considerado, mas não penso que deva ser um critério decisivo para levar ou não a sério a colaboração de um ativista.

O caso da "Central Ceticismo" parece como bem se comentou o caso de um ativista deslumbrado com o pensamento crítico, revelando um preconceito nada racional. A anonimidade, a meu ver, tem pouca relevância aqui, o autor sequer percebe a discriminação que promove, de forma que não abusa -- deliberadamente -- da anonimidade.

Bem, é minha opinião talvez um pouco enviesada da questão. Mas enfatizo: o CeticismoAberto começou anônimo!

Cordial abraço,

Kentaro Mori (o próprio, desde 2005!)

Chico disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Chico disse...

O comentário do Jobson exemplifica uma conduta majoritária entre os homofóbicos “modernos”, os quais se cobrem com um verniz de polidez e civilidade. Tentam, desonestamente, reposicionar o homossexualismo como uma questão ideológica à qual cabe um debate e um eventual veredicto sobre sua legitimidade e aplicabilidade. Com essa perversão dos fatos pensam que ganham o direito de acusar de censores os que defendem dos direitos dos gays. Creio que não exista assunto intocável, mas o homossexualismo não é uma questão política ou ideológica e, portanto, um debate justo precisa respeitar as fronteiras do bom senso e das liberdades individuais.

Enquanto questões políticas e ideológicas de amplo impacto social demandam discussão ampla e democrática em busca de uma decisão acerca de sua validade, visando benefício geral da sociedade, o homossexualismo é um processo interno do indivíduo que só pode se projetar negativamente na sociedade através da intolerância desrespeitosa por parte das massas emburrecidas. Mesmo se a conduta homossexual fosse objetivamente nociva ao cidadão que a pratica, o homossexualismo não poderia ser nocivo à sociedade porque não pode ser ensinado; não é uma doutrina que conquista adeptos. Tampouco é uma opinião, que poderia ser revista quando confrontada por argumentos e evidências.

O homossexualismo faz parte da identidade do indivíduo, como sua cor de cabelo (ele não escolheu ser gay; ele simplesmente é). Seguindo a analogia, cabelos até podem ser pintados, mas logo crescerão com a cor original. Dessa forma, qualquer “opinião contrária” ao homossexualismo é uma tentativa de restrição do indivíduo em seu espaço absolutamente pessoal e, portanto, uma ofensa. Por fim, simplificando ao nível em que até uma criança possa entender (não sei como adultos não entendem), é obsceno criticar ou condenar um indivíduo por tentar atender suas necessidades na busca pela felicidade sem prejudicar ninguém.

PS: sou hétero, mas certamente usaria essa camiseta da foto.

Jorge Quillfeldt disse...

Pessoal,

Apareceu a resposta do pessoal da Central Ceticismo: é uma pessoa só, e informa ser advogado. Nada de nomes. E os feeds sumiram completamente, inclusive os arquivos e demais informações. Canto do cisne?

Trata-se de um "disclaimer" enfático, em tom de desacato (ofendido), cujo objetivo principal parece ser defender-se contra eventuais processos judiciais. Ele parece entender disso.

Minha hipótese parece estar se confirmando empiricamente.

Jorge Quillfeldt disse...

Oi, Kentaro,

Entendo teu caso, talvez devesse ter listado excessões a considerar.
Como foste meio pioneiro na redona, faz sentido teres sido cuidadoso.

Defendi o não ao anonimato em função de que (1) no Brasil não ocorre perseguição física de ninguém em função desse tipo de opinião (ainda que possa haver outros tipos de discriminação) e por que (2) hoje a coisa é diferente e já existe uma blogosfera cética bem estabelecida: assim, o anonimato hoje é suspeito e deve inspirar desconfiança. Puro pensamento crítico.

ĴΛЇΔЄЯ disse...

Vale também lembrar deste vídeo do Ian:

http://www.youtube.com/user/lihsbrasil#p/u/38/F2UOEi0i0ks

Eli Vieira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eli Vieira disse...

Caro Jorge,

interessante sua análise sobre a netiqueta ou o ethos virtual.

Eu penso que, mais que os psicanalistas, as ciências cognitivas estão no caminho certo ao tratar a mente humana como uma unidade instável entre módulos independentes e interagentes.

Preconceitos têm a ver com a identificação pessoal. Sempre me lembro de uma pesquisa de Adrianna Jenkins e colaboradores, de Harvard, a respeito. Perguntavam aos probandos se uma pessoa vista numa foto gostava ou não de tomate na pizza, entre outras perguntas irrelevantes. Em média, a resposta, que é uma previsão do comportamento alheio, coincidia com o próprio gosto dos probandos quando eles recebiam motivos para pensar que a pessoa observada se identificava com eles.

Os resultados foram consistentes tanto para opinião política quanto para cor da pele. Arrisco dizer que acontece o mesmo para orientação sexual.

Anedoticamente falando, percebo uma tendência de aproximação entre erudição geral (científica+filosófica+artística) e opiniões liberais. Se estou certo, isso corrobora o racionalismo crítico de Popper em algum grau, que, como ressaltei na reação do Bule Voador à homofobia da Central Ceticismo, propõe que a construção do conhecimento só pode acontecer concomitantemente à liberdade individual numa sociedade aberta.

Nós, na academia, gostamos de pensar que caminhamos nesta direção de promoção da investigação livre, que necessariamente tem como corolário uma sociedade aberta e democrática.

Porém, há um desafio que se impõe a nós todos: até que ponto o que declaramos sobre valores liberais reflete acuradamente a reação de nossos módulos mentais mais resistentes?

Nos termos que Carl Sagan usou em "Dragões do Éden": até que ponto o neocórtex pode sobrepujar a sede de sectarismo do cérebro reptiliano?

Na revista especulativa Medical Hypotheses, Charlton argumenta que a Academia é um nicho para o que ele chama de "clever sillies" (é uma boa provocação):

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19733444

O que quero dizer com tudo isso é que não foi apenas o advogado da Central Ceticismo quem entrou em dissonância cognitiva tentando dar voz a um módulo mental contaminado pelo sectarismo no lugar de ouvir a razão.

Este é um risco que nós céticos corremos o tempo todo, por termos descendido do processo errático e subótimo da evolução. Porém, como lembra Gary Marcus no livro "Kluge", podemos, com o esforço das nossas capacidades racionais, lutar contra o "passageiro sombrio" (parafraseando o personagem Dexter Morgan) sectarista que vive em cada um de nós, assim como lutamos diariamente contra a preguiça, a procrastinação, e outros comportamentos arracionais que brotam de nós neste emaranhado de módulos mentais.

Ninguém disse que seria fácil ser cético e racionalista. É um investimento enorme de energia, mas felizmente com retornos maravilhosos.

Não que eu ache que você não sabia disso, estava só divagando.

Grande abraço,
Eli

Oraculo disse...

Jobson: "A ditadura gay já começou?
O que tem de errado em alguém se expressar livremente que não apoia o homossexualismo???? "Não apoiar" não significa "ser contra"."

Nem deveria ser necessário explicar, mas vamos lá. Não se "apoio o homossexualismo", o que se apoia são pessoas, perseguidas, discriminadas ou com seus direitos violados, por serem homossexuais. Como se apoia pessoas discriminadas por cor, gênero, ou qualquer outra qualidade, escolha ou natureza.

E este é um dos casos em que não existe "neutralidade": não ser "a favor", ou defender os direitos de alguém, significa ser "contra". Seria como ser "neutro" em relação a Ku Klux Kan, ou neutro em relação a pedofilia, ou neutro em relação ao apedrejamento de adulteras no Irã.

Ninguém pediu apoio ao homossexualismo, e nenhum texto ou post do Bule tinha essa intenção. A intenção era denunciar a discriminação, a perseguição, a intolerância, com relação a homossexuais, bem como a qualquer outra pessoa ou grupo. Bastaria LER os textos em questão para entender isso.

Nenhum dos textos, e muito menos o Bule como conjunto, justificaria a "retirada" da lista do CC, muito menos a retirada com a agressão postada na página principal (sim, agressão, e homofóbica, dada a natureza dos termos e absurdo da afirmação).

Não apoiar, no sentido de ser tolerante e reconhecer os direitos da PESSOA, qualquer que seja a sua sexualidade, é ser contra, provavelmente devido a homofobia.

Mas, repito, nem deveria ser necessário explicar isso.

Israel disse...

O cara tem razão. Tem assuntos que male male se pode molhar o bico e já vem uma avalanche de trolls.

Complicado.

Mas o cara tem razão. A irracionalidade nos foruns beira às paixões e aos orgulhos.

E só pra acabar feliz o ano, Jef, solta a mensagem clássica!
(eu sei que tu tem ela pronta em algum arquivo texto pra um control+c)

Delilian disse...

"E se alguém não entendeu:

NÓS CONDENAMOS A HOMOFOBIA.

NÓS REPROVAMOS QUALQUER FORMA DE PRECONCEITO."


Bom, desculpem a ignorância, mas eu não entendi.
Como alguém pode falar "Não apoiamos a homossexualidade" e isso não parecer homofóbico?
Reprovam qualquer forma de preconceito mas reprimiram o blog Bule Voador.

Mais me parece que ele pisou na caca e agora quer limpar.
O que foi dito está dito.
Teria sido mais sensato se arrepender e fazer um pedido de desculpas. Mas vai saber né...

Kentaro Mori disse...

Professor, o que temia não eram tanto represálias físicas, e sim intimidações legais e ultimamente financeiras.

Penso que a preocupação era e é muito relevante. Respondo hoje a duas ações legais decorrentes do que publiquei no CeticismoAberto. E pelo visto não serão as últimas.

Tem sido custoso, em vários aspectos, e tenho dependido muito da colaboração de amigos e simpatizantes da causa. Isso, depois de anos no ativismo, de ser independente financeiramente e tanto mais. E, principalmente, porque decidi, ao revelar minha identidade, que meu envolvimento com o ativismo cético é algo para toda uma vida.

Todo ativista cético deve embarcar neste movimento assumindo os mesmos compromissos? Em efeito é que já fazemos todos que abrimos mão de qualquer tentativa de preservar nossa identidade, expondo nossos nomes, mostrando nossos rostos.

Estão todos conscientes disso? Nós, sim, mas temo que parte dos mais jovens e empolgados não. E os mais jovens e empolgados que tenham consciência destes riscos, como devem ter, talvez vejam, como eu vi há dez anos, a alternativa de contribuir com algo sem a exposição completa e aberta que nós assumimos.

O anonimato é em si mesmo ilegal. E, na rede, ele é em grande parte uma ilusão -- mandados judiciais permitem identificar praticamente a todos.

Pseudônimos, por outro lado, são reconhecidos. E a preservação de informações pessoais é algo de fato recomendado. O que defendo é que o anonimato (ou a tentativa de buscar o anonimato, de preservar a própria privacidade) não seja visto como critério tão relevante para não levar a sério nenhum colaborador.

Ressalto que o problema da CentralCeticismo não foi o anonimato: o usuário não buscou deliberadamente abusar dele. Não penso que caso usasse o próprio nome tivesse agido de forma muito diferente. E nem foi o anonimato que denunciou um problema naquele projeto, foi a exposição escancarada de preconceito.

Abraço, e votos de mais sucesso ao Coletivo em 2011!

Kentaro

Jorge Quillfeldt disse...

Olá, Kentaro,

Muito boas tuas considerações, fez-me pensar muito. Acho que talvez precisemos distingüir dois tipos de anonimato, o que chamarei de "anonimato instantâneo", de curto prazo, que favorece alguém dizer algo "excessivo" por não "enxergar" as reações alheias naquele momento (e ser incapaz de imaginá-las...), e o "anonimato de compromisso", de longo prazo, em que uma iniciativa (página, blogue) está ou não vinculada / identificada por nomes. Talvez eu tenha generalizado indevidamente a necessidade do segundo tipo pensando em contornar as mazelas evitáveis do primeiro.

Não temos dúvida que a ca*ada daquele advogado (?) foi ter sido francamente preconceituoso - "em tempo real"- algo que É FAVORECIDO PELO ANONIMATO INSTANTÂNEO DA REDE, exatamente neste sentido de que está-se a escrever sem ver a cara das "vítimas", suas reações, em completa ausência de qualquer realimentação sócio-afetiva, por mínima que seja; cara a cara, essa "sinceridade" não apareceria, pois apenas os muito estúpidos se expõem dessa forma (correndo o risco de levar porrada, inclusive). Acho que o caso que vimos discutindo não passou disso mesmo.

O segundo tipo, "anonimato de compromisso", é diferente, embora também corra o risco de subservir a dois tipos opostos de motivações: proteger-se para abordar assuntos delicados (positivo) X ocultar-se para fraudar e manipular sistematicamente (negativo). Uma declaração de princípios pode ajudar a deixar claro a qual subclasse se pertence, mas só a prática diária deixará claro, para todos, se o anônimo age de boa fé ou está a explorar sua condição em benefício próprio (inclusive financeiro). O tipo de anonimato de compromisso que defendeste é o positivo, exemplificado pelo teu próprio caso em que vários anos de ótimas iniciativas demonstraram abundantemente a boa fé e integridade do teu trabalho.

Fui meio simplista em generalizar a atitude de "enfrentar de cara aberta" como regra para nosso tipo de blogagem. Esta é a opção que nós fizemos por que podíamos nos dar ao luxo de fazer. Só foi possível devido às posições relativamente estáveis que galgamos em nossas instituições e carreiras, que nos concedem certas liberdades (e veja que, mesmo assim, não são ilimitadas). Desde que me lembro por gente, desejei poder ser um bom franco-atirador - no domínio das idéias, bem entendido! - mas tive de esperar para poder dar certos "tiros". É assim que funciona, infelizmente. E essa demora acaba cobrando um preço alto da maioria de nossos colegas, que acabam incorporando esse "policial endógeno" (nos moldes daquela frase do maio de 1968) e não conseguem mais estar à vontade para ser e pensar como de fato gostariam.

Isso explica porque somos tão poucos os que, na academia - apesar de nos assumirmos como educadores - nos importamos em fazer algo quando o assunto implica em pisar nos calos culturais e sócio-afetivos dos outros.