quinta-feira, 4 de março de 2010

O ateísmo de David Eller

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Aproveitei as férias para mergulhar no último livro do antropólogo David Eller, Atheism Advanced. Ao longo da leitura me perguntaram porque eu não aproveitava o tempo em algo mais emocionante, como um romance da Jane Austin. Bem, confesso que achei o livro de Eller muito bem escrito e estimulante. A pedido do Jeferson, faço um pequeno resumo que, espero, incentive a leitura. Desculpem a extensão do post.

David Eller é antropólogo e tem experiência em um amplo espectro de comportamentos religiosos. Estudando-os em detalhe e comparando-os extrai uma série de observações pertinentes. Cito algumas: i) há uma série de religiões não-teístas como as animistas ou mesmo o budismo, ou seja, a palavra ateu não elimina todas as religiões; ii) não é possível mapear um elemento qualquer de uma religião a todas as outras, portanto não há universalidade; iii) muito do discurso ateu atual "fala cristão", termos como "acreditar" são característicos do discurso cristão, tem sentido vago (desde "é provável", passando por "aceitável" e chegando até a "fé cega"), eles foram construídos ao longo da evolução do cristianismo e atualmente são usados para colocar falsamente ciência e religião sob o mesmo teto.

Na tentativa de responder a pergunta "O que é religião?" Eller revisa teorias que atribuem origem histórica, psicológica (Freud), sociológica (Marx, Durkheim) e biológica (E.O. Wilson). Conclui que todas estão parcialmente corretas mas incompletas porque, de fato, não existe uma essência para religião, mas sim uma série de elementos que podem ser combinados de diferentes maneiras, um sistema modular, como a economia e a cultura.

Com essa perspectiva ele relaciona religião e violência em diferentes escalas de tamanho de agrupamentos humanos, partindo do indivíduo e chegando ao estado (assim como se poderia relacionar economia ou cultura e violência). Segue-se então um longo capítulo sobre ciência e religião que vale a pena ser lido. Entre outras coisas, fica claro porquê algumas áreas da ciência são objeto de interesse da religião e outras não.

A segunda metade do livro é dedicada à experiência individual e a relação com a "loucura das multidões". Discute porquê a "experiência individual" com o "divino" sempre resulta nas religiões dos grupos que circundam o indivíduo e avança com profundidade na psicologia de grupos. Como consequência lança luz sobre as dificuldades do surgimento de grupos de ateus.

A seguir, usando exemplos de várias religiões, Eller identifica o que chama de "colonização" religiosa nas diferentes esferas de nossas vidas e propõe que se pense em como viver e promover uma existência livre de religião. Mas ele não pára por aí, os dois capítulos seguintes são particularmente saborosos. "Os pensamentos e pensadores por trás da religião ocidental" toca nas pedras fundamentais da nossa visão de mundo advindos da civilização greco-romana, sua transformação ao longo da idade média, do iluminismo e mostra como o cristianismo é construído sobre essas bases. Sobre essa perspectiva Eller parte para a discussão de "Mito e Moral". Se você acha que mito é o da religião dos outros (ou a mitologia greco-romana) e que a moral decorre da religião (Kant), prepare-se para ser desconstruído!

Finalmente Eller estuda, comparativamente nas religiões, o significado de "acreditar", como mencionei acima, e propõe uma ampliação do conceito de ateísmo para "discredismo", no sentido de não ter credos.

3 comentários:

Israel Goncalves de Oliveira disse...

"Mas ele não pára por aí, os dois capítulos seguintes são particularmente saborosos. "Os pensamentos e pensadores por trás da religião ocidental" toca nas pedras fundamentais da nossa visão de mundo advindos da civilização greco-romana, sua transformação ao longo da idade média, do iluminismo e mostra como o cristianismo é construído sobre essas bases."

A Igreja primitiva, fundada pelos discípulos de Jesus, foi construída durante o período de domínio romano (claro, todos sabem) e, inclusive, o NT fora escrito em grego pelos discípulos posteriores.

Um cuidado que se deve tomar é fazer a devida distinção entre o cristianismo católico e o bíblico. São bem diferentes.

Leon,

Poderia citar algumas partes do livro que fale sobre essas bases? Tens em PDF?

Obrigado.

Austin disse...

Israel, qual a diferença dos ois cristianismos aí?

Israel Goncalves de Oliveira disse...

Caro Austin,

Acredito que esse tópico não seja um lugar adequado para colocar os textos que poderiam responder a sua pergunta.

Basicamente, no catolicismo há práticas que não estão de acordo com a Bíblia.

Exemplos: idolatria, liturgias pagãs, o papa fala em nome de Deus e pode contradizer o que está na Bíblia etc. Só isso já dá para se ter uma idéia da diferença que é e que resulta.

Mais informações e detalhes, podes acessar o CACP [http://www.cacp.org.br/catolicismo/]

E isso não é de hoje, pesquise sobre Lutero e a Reforma [http://www.cacp.org.br/catolicismo/artigo.aspx?lng=PT-BR&article=102&menu=2&submenu=10]

Espero ter ajudado. Qualquer dúvida podes mandar um e-mail.