quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Proibição de crucifixos nas escolas da Itália

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ROMA (Reuters, 03/11/09 - por Philip Pullella) - A determinação da Corte Europeia de Direitos Humanos na terça-feira de proibir que as escolas italianas mantenham os crucifixos nas salas de aula causou indignação na Itália, onde esses símbolos religiosos fazem parte da psiquê nacional.

[escolhi essa versão da notícia para ilustrar a "isenção" da Reuters, que ecoa a imprensa berlusconista italiana... bem melhor para a saúde é ler as versões menos "dramáticas" do Portal Público (Portugal) e da BBC, por exemplo]

"A decisão da corte europeia foi recebida no Vaticano com choque e tristeza", disse o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi.

"É errado e uma miopia tentar excluí-lo (o crucifixo) do mundo da educação", disse ele, somando-se à indignação que a decisão desencadeou na Itália católica romana.

A sentença da corte, da qual a Itália informou que vai apelar, determina que crucifixos nas paredes das escolas, algo comum na vida italiana, poderiam perturbar crianças que não sejam cristãs.

A Itália vive um conturbado debate sobre como lidar com uma crescente população de imigrantes, na maioria muçulmanos, e a sentença da corte provavelmente se tornará um novo grito de guerra na política do governo de centro-direita para restringir a vinda de estrangeiros.

"Essa é uma decisão abominável", disse Rocco Buttiglione, ex-ministro da Cultura que ajudou a redigir encíclicas papais.

"Tem de ser rejeitada com firmeza. A Itália tem sua cultura, suas tradições e história. Aqueles que vêm viver entre nós têm de compreender e aceitar esta cultura e esta história", disse ele.

O porta-voz do Vaticano disse que era triste que o crucifixo possa ser considerado um símbolo de divisão e disse que a religião ofereceu uma contribuição vital à formação moral das pessoas.

Membros do governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi se enfureceram, usando palavras como "vergonhoso", "ofensivo", "absurdo", "inaceitável" e "pagão".

GOLPE MORTAL

O ministro de Relações Exteriores, Franco Frattini, disse que a corte deu um "golpe mortal em uma Europa de valores e direitos", acrescentando que isso foi um mau precedente para outros países.

A ministra da Educação, Mariastella Gelmini, disse que os crucifixos nas paredes de dezenas de milhares de salas de aula "não significam adesão ao catolicismo", mas são um símbolo da herança da Itália.

Pelo menos uma garota muçulmana discordou da corte.

"Se o crucifixo está lá e eu sou muçulmana, vou continuar a respeitar a minha religião. Jesus na sala de aula não me incomoda", disse Zenat, uma menina de 14 anos de origem egípcia, em declaração à Reuters TV.

Duas leis italianas dos anos 1920, quando os fascistas estavam no poder, determinam que as escolas devem ter os crucifixos nas paredes.

Alessandra Mussolini, neta do ditador fascista Benito Mussolini, disse que decretos como este estavam levando a uma "Europa sem identidade".

Apenas um punhado de políticos defendeu a corte, incluindo membros do Partido Comunista e de grupos ateus.

(Reportagem adicional de Crispian Balmer em Paris e Antonio Denti em Roma)



5 comentários:

Bremm disse...

Sou ateu e os crucifixos não me incomodam.A única coisa que me incomoda (de verdade) é quando uma pessoa religiosa tenta convencer-me de que deus existe.

Michael disse...

Há alguns meses, o Ministério Público Federal pediu que fossem retirados os crucifíxos de locais públicos. O resultado é o seguinte:
http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/clipping/agosto-2009/juiza-nega-proibicao-de-crucifixo-em-reparticoes/

Duas questões:
1-Por que a presença de símbolos são prejudiciais em instituições públicas?
2-Existe, no nosso país, alguma entidade ateísta que pudesse entrar com um pedido para que se cumpra o que está na Constituição?

Jeferson Arenzon disse...

A questão não é a presença de um símbolo, mas sim a de um símbolo que representa a crença de um subgrupo da população. São eles melhores do que os outros? Se são maioria, não é portanto um sinal de opressão? Um estado democrático, laico, deve tratar todos os cidadãos igualmente, e o único modo é não dispor símbolo religioso algum em lugares públicos.

Marco Idiart disse...

Alo Michael

O Jef disse tudo. O problema dos símbolos é mais uma questão de respeito a todos. Eu escrevi algum tempo atrás que tudo depende de como o símbolo é usado. Uma pessoa que veste o símbolo ou o coloca em sua mesa de trabalho, está dizendo para os outros: esta é minha fé. Não vejo nada de errado nisto. Agora se colocamos um símbolo numa sala, acima de todos, isto pode representar que a atuação desta repartição segue os preceitos de um determinado credo, o que fere a laicidade do estado, e sou contra. O caso extremo seria termos o crucifixo, por exemplo, na fachada do prédio.

E isto não tem nada a ver com ser Ateu. Um judeu, um muçulmano, um brahmane devem ter o mesmo tipo de objeção, não é mesmo? Ou você acha que o contrário de cristão é ateu?

IVO BITENCOURT disse...

O mestre da galiléia já dizia, eu vim para dividir, pai contra filho, filho contra pai........