terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Criacionistas arragaçam as mangas no Brasil!

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Aí vêm problemas...

Deu no OESP que "Escolas adotam criacionismo em aulas de ciências" (veja aqui), e a FSP publicou neste fim de semana (06/12) nas coluna "Tendências | Debates", duas "opiniões" , uma de Charbel Niño El-Hani ("Educação e discurso científico") e outra, patética, de Christiano P. da Silva Neto ("A teoria da evolução e os contos de fadas"). Este último, após discorrer divertidamente sobre a estratégia de chocar ovos do Cuco, conclui: "Agora, crer que essa estratégia de sobrevivência, tanto do cuco adulto quanto do cuco recém-nascido, pode ser produto das casualidades de um contexto naturalista é uma indicação de pouco conhecimento de matemática, em particular da teoria das probabilidades, de um mundo que é mesmo o dos contos de fadas, em que sapos viram príncipes e a teoria da evolução ganha contornos de realidade." Ficamos sem saber qual a formação do ilustre cientista, mas ele diz ser presidente da ABPC ou "Associação Brasilera de PESQUISA (!) da Criação" e parece saber do que está falando...

A repercussão entre os leitores do supracitado duelo traz, entre outras, uma pérola de um mestre em ciências sociais que ilustra perfeitamente os malefícios do relativismo levado aos extremos da irresponsabilidade (e beirando a má-fé): "Sobre a questão 'O criacionismo pode ser ensinado nas escolas em aulas de ciências?' ('Tendências/Debates', 6/12), a resposta pode variar entre o sim e o não, porquanto em matéria de conhecimento, sobretudo científico, jamais há a última palavra. Para formação educacional, é salutar que haja esse debate em sala de aula, pois as escolas não devem formar autômatos, mas pensadores. A ciência nasce da observação e reflexão, ou seja, é produto do pensamento e da ação humana no mundo. Ela não é algo estanque, mas sujeito a vicissitudes. É isso que enriquece o conhecimento. É limitado, portanto, julgar o evolucionismo superior ao criacionismo, ou vice-versa. Não é pelo fato de ser científico que é verídico, tampouco é pelo fato de ser tradicional que não é ciência. Enfim, os estudantes precisam saber e, os educadores, ensinar que a verdadeira ciência resulta do debate plural, não de visões reducionistas."... sim, e com a desinformação generalizada, já sabemos onde isso vai dar!

Aliás, basta dar uma procurada na rede para ver que nossos amigos criacionistas, sejam dos 'clássicos', sejam daqueles travestidos de "Desenho Inteligente" * , não estão perdendo tempo! Já há alguns anos vêm pressionando pelo ensino público da "controvérsia" no Brasil, e até já houve incidentes que ajudaram alguns a posar de vítimas de censura ou mesmo de perseguição inquisitorial... É o vale tudo na guerra de imagem e credibilidade, é o MARQUETCHIN SUBSTITUINDO A EDUCAÇÃO! As notícias pululam e as páginas na rede proliferam memeticamente, como é o caso da própria ABPC, da "Revista Criacionista" ou da fascinante página do "Repórter de Cristo" (pelo menos não nos podem acusar de não "divulgá-las"... no caso como chistes internéticos).

Em nossa 1a. Semana Cética da UFRGS discutimos o impacto educacional dessa nova tendência em proliferação no país, responsabilidades foram atribuídas e estratégias de enfrentamento elencadas. Na linha do que Randy Olson comenta em "Um Bando de Dodôs", pergunto-me: estaremos perdendo o debate público em defesa da ciência também no Brasil?

Segue a notícia de ontem:

Escolas adotam criacionismo em aulas de ciências
Especialistas criticam medida
Simone Iwasso e Giovana Girardi escrevem para “O Estado de SP” (08/12)

Polêmicos nos Estados Unidos, onde são defendidos por movimentos religiosos como mais do que explicações baseadas na fé para a criação do mundo, o criacionismo e o design inteligente se espalham pelas escolas confessionais brasileiras - e não apenas no ensino religioso, mas nas aulas de ciências.

Escolas tradicionais religiosas como Mackenzie, Colégio Batista e a rede de escolas adventistas do País adotam a atitude de não separar religião e ciência nas aulas, levando aos alunos a explicação cristã sobre a criação do mundo junto com os conceitos da teoria evolucionista. Algumas usam material próprio.

Outros trabalham com livros didáticos da lista do Ministério da Educação e acrescentam material extra. "Temos dificuldade em ver fé dissociada de ciência, por isso na nossa entidade, que é confessional, tratamos do evolucionismo com os estudantes nas aulas de ciências, mas entendemos que é preciso também espaço para o contraditório, que é o criacionismo", defende Cleverson Pereira de Almeida, diretor de ensino e desenvolvimento do Mackenzie.

O criacionismo e a teoria da evolução de Charles Darwin começam a ser ensinados no colégio entre a 5ª e 8ª séries do fundamental. Na hora de explicar a diversidade de espécies, por exemplo, em vez de dizer que elas são resultados de milhares de anos do processo de seleção natural, se diz que a variedade representa a sabedoria e a riqueza de Deus.

No Colégio Batista, em Perdizes (SP), o entendimento é semelhante. "Ensinamos as duas correntes nas aulas e deixamos claro que os cientistas acreditam na evolução, mas para nós o correto é a explicação criacionista. O importante é que não deixamos o aluno alienado da realidade", afirma Selma Guedes, diretora de capelaria da instituição.

A polêmica está no fato de os colégios ensinarem o criacionismo e o design inteligente não como explicações religiosas, mas como correntes científicas que se contrapõem ao evolucionismo. Nos EUA, a polêmica parou na Justiça. Em 2005, tribunais da Pensilvânia decidiram que o design inteligente não era ciência, recolocando Darwin nas escolas.

No Brasil, onde o debate não é tão acirrado, esse tipo de ensino tem despertado dúvidas sobre a validade na preparação dos alunos. Os conteúdos de ciências exigidos em concursos e vestibulares são baseados em consensos de entidades científicas, que defendem a teoria da evolução.

Já nos cerca de 2 mil colégios católicos, segundo dados da Rede Católica de Educação, não há conflitos entre fé e teoria evolucionista. No material usado por cerca de cem colégios do País, as aulas de ciência trazem a teoria da evolução e explicam o papel de Darwin.

Especialistas criticam medida

Especialistas ouvidos pelo 'Estado' consideram um equívoco a presença do criacionismo na aula de ciências.

"É completamente inadequado ensinar como teoria científica, porque não é teoria científica", diz Ildeu de Castro Moreira
, diretor do departamento de Popularização da Ciência e da Tecnologia do Ministério da Ciência e da Tecnologia. Para ele, não há problema abordar o assunto, "assim como se fala em alquimia na história da ciência", mas "oferecê-lo como alternativa é uma inverdade."

Isaac Roitman, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), reforça. "É perfeitamente aceitável que o criacionismo seja apresentado como corrente que existe, mas está ligada à fé, enquanto a evolução é comprovada cientificamente", diz. Para Nélio Bizzo, da USP, não há sentindo em tentar provar a existência de Deus cientificamente.

Fonte: SBPC / JC e-mail 3657, de 08 de Dezembro de 2008



(*) Sobre o DI,
este é um bom verbete da Wikipédia em português que, porém, devido ao assédio dos cibercriacionistas e à insegurança dos demais, ostenta o alerta "Este artigo ou secção possui passagens que não respeitam o princípio da imparcialidade"... aliás, sobre DI, eis aqui uma opinião igual a minha.

PS: Quem quiser divertir-se com os conflitos entre Criacionistas e outras religiões, leia
"Detonam a Bíblia e exaltam o espiritismo" (aqui), divertidíssima.

4 comentários:

Marcia disse...

A adocão de criacionismos nas escolas sem que a populacão em geral sequer pense que é algo errado reflete um fato ainda mais grave: nossos professores ( e incluo nisto até os de terceiro grau) não sabem o que é o método científico.

Os estudantes do ensino médio (nome apropriado para a qualidade do que ensinam) até são expostos a conceitos
de física, química e biologia mas
os usam biblicamente.

Talvez "a guerra santa" que devesse ser instaurada no meio acadêmico fosse a de impor o método como conceito básico a ser ensinado em ciências. Afinal, aprendemos a ler antes de aprendermos regras de ortografia.

MethodicalMind disse...

Concordo com a Márcia. Acho que acadêmicos se esquecem que se passa todo o ensino primário, ginásio e até superior em cursos não voltados para formas pesquisadores (como engenharia no meu caso) sem se tocar no método científico. Só recebemos uma enxurrada de informações sobre teorias, sobre os resultados do processo científico sem nunca nos ensinarem como tal processo funciona. Eu mesmo estou aprendendo isso só agora, por conta própria.

Anônimo disse...

Que tirinha mais positivista e ingênua ... fatos são feitos, são interpretações.

Racionalista disse...

De fato "fatos" são interpretações a luz de pressupostos teóricos. Entretanto os pressupostos científicos estão abertos à crítica e ao escrutínio racional-empírico e, por princípio, são falíveis e corrigíveis. As interpretações religiosas, de um modo geral são acríticas, "eternas", baseadas em algum velho livro revelado por alguma entidade que nem deus sabe onde está!! Alguém já afirmou que quem aceita "verdades reveladas" está aberto a aceitar qualquer coisa, qualquer bobagem!!