
Artigo publicado na revista Adverso, abril 2009.
Aldo Mellender de Araújo
Este ano de 2009 irá se caracterizar pela presença muito freqüente, na mídia e nos meios acadêmicos, de Charles Darwin, o pacato cidadão que nasceu no dia 12 de fevereiro de 1809, portanto há 200 anos atrás e que mudou a nossa maneira de ver o mundo.
À época em que ele nasceu e viveu, todos os seres vivos eram tidos como criados, no passado, tal qual se mostram hoje, sem qualquer mudança. É o que se chamou de fixismo: as espécies, incluindo a nossa própria, seriam fixas, isto é, imutáveis. Pois ele sugeriu, baseado em intensos e extensos estudos, principalmente após a sua viagem de quase 5 anos pelo mundo – viagem em grande parte (3 anos), passada aqui na América do Sul - que todos os seres vivos, sem exceção, modificaram-se ao longo do tempo, desde um início muito antigo. A abelha que hoje vemos formando colméias e produzindo o tão apreciado mel, no passado não era assim, não era nem mesmo um inseto social, como é hoje. As aves que hoje nos encantam com sua beleza e muitas delas, com seu canto, foram diferentes no passado, há milhões de anos atrás.
Na verdade, estudos já no século XX, mostraram que elas vieram – elas evoluiram - de um grupo de dinossauros!! O termo, evolução, surgiu a partir dos estudos de Darwin. A evolução de qualquer ser vivo, não quer dizer que ele tenha melhorado, mas simplesmente se modificou. Nós é que emprestamos um outro sentido à palavra evolução. Na mesma obra em que essas idéias eram defendidas, A Origem das Espécies (1859), ele criou o conceito de seleção natural, o qual utilizou para explicar a causa das modificações em todos os seres vivos.
Nós, humanos, também no passado fomos diferentes: de um início como uma forma simiesca, no leste da África, mudamos nossa maneira de caminhar, para bípede, mudamos nossa maneira de pensar e adquirimos toda esta inteligência criativa que nos orgulha muito. Aliás, nossa origem africana havia sido prevista por Darwin, especialmente em uma outra obra importante, A Descendência do Homem e a Seleção Sexual (1871).
Ao propor que todos os seres vivos se modificaram, a partir de formas ancestrais, diferentes, Darwin criou a imagem de uma árvore da vida. Todas as folhas desta árvore, que estão na parte externa dos ramos, representam os seres vivos atuais; as internas, os extintos. Esta imagem da árvore nos leva à conclusão de que no passado muito remoto, todos vieram de um ou poucos ancestrais (como a convergência dos galhos no tronco da árvore). De fato, estudos de biologia molecular tem confirmado esta inferência.
Qual a implicação desta idéia? Todos constituimos uma família!! Somos, portanto, parentes uns dos outros. Nós, humanos, por exemplo, temos os nossos parentes mais próximos, o chimpanzé e depois o gorila. Darwin também sugeriu este parentesco, o que foi confirmado muito depois, no século XX, com estudos aprofundados de anatomia, morfologia e biologia molecular. Extrapolando um pouco as idéias de Darwin, podemos admitir uma fraternidade, uma irmandade entre os seres vivos e muito particularmente entre nós, humanos. Não se trata de uma concepção religiosa, mas a idéia de uma irmandade ampla entre todos nós humanos, tem um suporte biológico. Como irmãos em uma família temos nossas diferenças: alguns são mais altos, outros mais gordos, alguns possuem pele bem clara, enquanto outros tem pele escura, alguns tem cabelos lisos, outros não e assim por diante.
Na perspectiva darwiniana não há um povo escolhido, muito menos um povo que representa o mal. Somos todos iguais do ponto de vista biológico, no sentido de fraternidade. A simples diferença não implica na qualificação como melhor ou pior. É por isso que celebramos Darwin: por intermédio de algumas idéias e conceitos simples, ele revolucionou o mundo acadêmico e também o modo como nos vemos no dia a dia.
Há uma luta pela vida, como ele próprio disse. Mas a expressão “luta”, que ele empregou não significa necessariamente briga, beligerância, morte.
Darwin também mostrou que a cooperação pode evoluir, isto é, uma espécie que é solitária hoje, poderá ser social amanhã. É o caso da nossa espécie: podemos ser cooperativos e de fato somos, na maior parte das vêzes, mesmo quando não ocorrem crises, como no caso das recentes enchentes em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Cooperamos, quando formamos casais e temos nossos filhos – às vezes, infelizmente isso termina. Cooperamos, quando resolvemos entrar para a política e trabalhar para a coletividade – às vezes, infelizmente o fazemos de modo desvirtuado. Esta é outra parte da revolução de Darwin: nossa vida social, nossos hábitos, nossos costumes, nossas crenças, se modificaram ao longo do tempo. É o que veio a ser conhecido como evolução cultural.
A cultura, nossos costumes, nossas tradições, nossa ciência, é um sub-produto da nossa evolução biológica: à medida que nos tornamos mais e mais inteligentes, criamos sistemas culturais. Como estamos distribuídos em vários continentes e dentro destes continentes, em grandes espaços, nossas culturas diferem.
Na perspectiva darwiniana, podemos aceitar a religião como mais um aspecto de nossa evolução cultural. Em conseqüência, da mesma forma que aceitamos e respeitamos as diferenças culturais entre nós gaúchos e nossos irmãos dos demais estados do Brasil, ou em relação a outros países, também devemos respeitar e aceitar as diferenças culturais entre as diversas manifestações religiosas e, talvez mais importante ainda, devemos aceitar e respeitar o ateísmo e a religiosidade. É possível mesmo afirmar que se o Adão e a Eva bíblicos, morreram, o homem e a mulher biológicos, foram ressuscitados, com todas as suas responsabilidades.
Aldo Mellender de Araúdo é professor do Departamento de Genética,
Instituto de Biociências, UFRGS.
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