segunda-feira, 27 de junho de 2016

O que não deveríamos esquecer na longa trilha...

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Com algum atraso - pois fora escrito para registrar o
Ano Internacional da Luz / 2016, publiquei na edição de abril de 2016 (No. 167) de Scientific American Brasil, a coluna Observatório a seguir. Para manter a tradição, atrasei mais ainda para publicá-lo aqui...

O foco do artigo é um filme muito especial - Nostalgia de la Luz, do chileno Patricio Guzman, uma obra  inclassificável (como explico) e que recomendo a todos que assistam logo, caso ainda não o tenham feito. Assistam de preferência antes de prosseguir e ler a coluna abaixo.

Tod@s podem assistir a íntegra do filme aqui . Está narrado em espanhol (que não é uma lingua estrangeira) e aparece, aqui, com legendas em inglês.

As idéias foram alinhavadas para um debate realizado no IF da UFRGS durante a Semana Nacional de C&T (Semana Acadêmica da UFRGS), em 20 de outubro de 2015, após a exibição do filme.

Divirtam-se, e, sobretudo, reflitam.




Na longa trilha rumo ao conhecimento do Universo
Jorge A Quillfeldt [escrito em 12mar2016]
Coluna Observatório - Sci.Am.Br. # 167

“Mais luz!” teria dito Goethe em seu derradeiro suspiro, talvez para não perder a oportunidade de uma última metáfora. E não faltam metáforas relacionadas com esse maravilhoso sentido que nos domina - a visão: na explicação, “se esclarece”, no parto, “dá-se à luz”, na esperança, “vê-se a luz no fim do túnel”, no reconhecimento, “brilha com luz própria” e no desvendamento de que era “invisível”, “traz-se à luz do dia”. Igualmente, abundam locuções evocando o oposto da luz.

O ano de 2015, foi escolhido pela ONU para ser o Ano Internacional da Luz (AIL), a começar pelos mil anos da obra de Ibn Al-Haytham, pioneiro da óptica, proto-renascentista e primeiro físico teórico – é sempre bom quando se relembram os esquecidos pioneiros árabes da ciência moderna. Também foram homenageados Fresnel (comportamento ondulatório da luz, 1815), Maxwell (teoria eletromagnética da luz, 1865), Einstein (efeito fotoelétrico, 1905 e relatividade geral de 1915, teoria em que a luz tem papel central), além de Penzias & Wilson (radiação cósmica de fundo de 3K, 1965), e Charles Kao (fibras ópticas nas comunicações, 1965). Tão completa celebração suscita a questão: o que mais pode a luz contar-nos, que já não saibamos?

O cinema, uma das “tecnologias da luz” que há mais de um século nos entretém, ocasionalmente até nos “ilumina”. É aqui que entra um trabalho que, a meu ver, elevou a metáfora da luz a um novo patamar: trata-se do surpreendente “Nostalgias de la Luz” (2010), do grande cineasta chileno Patricio Guzmán. Aos que ainda não assistiram, recomendo fazê-lo antes de prosseguir a leitura (o documentário pode ser assistido diretamente na rede).

O filme começa com o que parece ser um simples documentário sobre a notável astronomia realizada hoje no Chile, sede de alguns dos maiores e melhores telescópios do planeta devido à combinação do clima extremamente seco com a altitude do deserto do Atacama. A Astronomia é a ciência que estuda o Universo precisamente mediante a luz que nos chega d´alhures. Decompondo-a, não apenas sabemos de estrelas e de galáxias, mas inferimos o que se passa em seu interior, a origem dos elementos químicos, o começo de tudo. Como a luz propaga-se com velocidade fixa, tudo que “vemos”, inevitavelmente já aconteceu: de fragmentos de segundos atrás – a distância que nos separa dos objetos refletidos a nossa volta – até os milhares, milhões ou bilhões de anos passados desde que foram produzidos aqueles fótons finalmente capturados pelos astrônomos. A luz sempre nos informa do passado, e de certo modo, define o próprio tempo.

No Chile, consórcios internacionais que incluem o Brasil administram grandes complexos de instrumentos ópticos que chegam a rivalizar com telescópios em órbita: no altiplano seco, a atmosfera interpõe-se menos inoportunamente no caminho da luz dos astros, e novas tecnologias quase compensam a perfeição do vácuo espacial.

Descrevendo tal particular clima, o autor nos faz então saber que esse mesmo deserto, tão seco que preserva, em notável estado de conservação, até mesmo múmias pré-colombianas, vem trazendo à luz outros fatos: Guzman conta a história de mulheres locais que procuram até hoje os corpos de seus filhos desaparecidos na ditadura que assolou o país entre 1973 e 1989. A incessante e dolorosa busca dá-se de forma quase invisível, pelo desconhecimento da maioria de seus compatriotas e de muitos de seus cientistas-visitantes.

Entretecendo conexões à moda de James Burke em sua notável série de documentários homônimos, Guzman prossegue a reflexão: como é possível que, das areias do Atacama – de cujos silicatos também pode-se fabricar lentes, espelhos e chips eletrônicos – possa a humanidade “ver tão longe”, aprendendo tanto acerca do universo, sem “enxergar tão perto”, esquecendo do horror?

A quem lhes pareça uma associação forçada, quiçá impertinente, não custa lembrar que o não visto, não é sentido.

Pacientemente, Guzman puxa improváveis fios e os entrelaça numa inesperada tessitura. Entrevista cidadãos de vidas muito diferentes, mães e cientistas, vítimas da repressão chilena e interlocutores acidentais daqueles questionamentos. Mas não o faz para denunciar omissão ou descaso. Tenta evidenciar o grande ausente neste emaranhado de temas aparentemente desconexos, e que, ao cabo, cinge-os todos juntos: a memória. A amnésia coletiva de um povo que se recusa a conhecer-se e acertar contas com seu passado tão próximo, talvez mescle dois tipos de alienação, a involuntária e a voluntária. Exceto por essas mães, que, com luz própria, recusam-se a aceitar o desaparecimento daqueles a quem, um dia, elas próprias deram à luz. Seus entes queridos, brutalmente ceifados por uma tsunami política que durante décadas assolou esse continente. Sem sabê-lo, decifram o último enigma do tempo, o da esperança: só recordando podemos evitar a repetição de semelhantes tragédias. Em sua saudável teimosia, talvez a luz no fim do túnel.

As improváveis, mas mais que necessárias associações desse filme, redefinem a própria linguagem cinedocumental, criando uma nova modalidade que poderíamos chamar de “sócio-metafísica”. De posse desse novo artifício narrativo, Guzman evoca a única coisa que, ao cabo, nunca deveríamos perder na longa trilha rumo ao conhecimento do Universo.

Nossa humanidade.

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