segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Genética, tolerância e honestidade intelectual

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Reproduzimos abaixo o release redigido pela assessoria de imprensa da LiHS em relação à entrevista do pastor Silas Malafaia no programa da Marília Gabriela e a subsequente refutação, em vídeo, por Eli Vieira, doutorando em genética na University of Cambridge. O vídeo se tornou viral, dando a Eli seus merecidos 15:31 minutos de fama que esperamos se tornem horas, dias e anos. Eli não foi o único a responder, mas certamente sua imediata resposta, pela clareza e honestidade intelectual, foi decisiva no processo de disparar e inspirar muitas das respostas que se seguiram. Eli se deteve nas alegações referentes à Genética, sua especialidade, referenciando suas informações com artigos científicos revisados por pares. Esse é o padrão de debate na esfera da ciência de alto nível. Apelar para falácias, destratar o oponente e não mostrar fontes, é o oposto. Ao Eli, nosso apoio.

O release:
O pastor Silas Malafaia, líder da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, citado pela revista Forbes (em 23/01) com um dos pastores mais ricos do Brasil, esteve no dia 3 de fevereiro no programa da entrevistadora Marília Gabriela, no SBT.
Na polêmica entrevista de 45 minutos, o pastor, entre outras coisas, afirmou que “46% dos homossexuais foram violados, violentados quando crianças ou adolescentes (...) e 54% escolheram ser”. Para amparar esta e outras teses, o pastor disse utilizar não apenas psicologia, mas também genética: “a genética mostra que ninguém nasce gay". O pastor deu a entender também que defende terapias de "reversão" sexual para homossexuais, ignorando claramente recomendações contrárias da OMS e do Conselho Federal de Psicologia no Brasil.

As afirmações do pastor de que a genética poderia confirmar esta tese revoltaram muita gente, dentre elas o deputado federal Jean Wyllys: “Levantai-vos mulheres e homens das ciências! Não se calem ante a estupidez fundamentalista e o cinismo dos exploradores comercias da fé! Juntem-se a nós no enfrentamento dessa estupidez: ela ameaça a própria ciência!”

A afirmação também chamou a atenção de Eli Vieira, biólogo, mestre em genética pela UFRGS que atualmente é estudante de PhD em genética na Universidade de Cambridge (Reino Unido). Em 15 minutos de um vídeo caseiro, Vieira rebateu um a um os argumentos do pastor relacionados à genética e deu início a um movimento em massa de refutação do líder religioso milionário. Graças às redes sociais, o vídeo tornou-se viral e em menos de 48 horas já havia ultrapassado o primeiro milhão de acessos.
Como geneticista, Eli Vieira, que é ativista pelos direitos humanos e um dos fundadores da Liga Humanista Secular do Brasil, já havia participado de muitos outros debates, mas surpreendeu-se com a repercussão do vídeo: “o vídeo aparentemente deu voz a muita gente que também não concorda com os absurdos proferidos pelo pastor em horário nobre”.
Malafaia sentiu o golpe. No dia seguinte ao vídeo de Vieira, respondeu, tentando desqualificar o biólogo com insinuações sobre sua sexualidade e ataques pessoais. O biólogo, chamado diversas vezes por Malafaia de "pseudo-doutor" e “doutorzinho”, afirmou que espera que “Malafaia responda com novos argumentos e não apenas com as mesmas coisas já refutadas em seu vídeo”.

Circula uma carta aberta em apoio a Vieira, que está sendo assinada por diversos geneticistas brasileiros, dentre eles o premiado professor Francisco Mauro Salzano, da UFRGS, Lavinia Schüler Faccini, também da UFRGS, Rosana Tidon da UnB e Eliana Dessen da USP .

O geneticista acrescenta que “o mesmo livro da Bíblia que taxa a homossexualidade como abominação também faz o mesmo sobre o consumo de bobó de camarão" (o Levítico diz que é abominação comer invertebrados), e que “a mesma pessoa que proibiu a homossexualidade no Novo Testamento, Paulo de Tarso, também proibiu as mulheres de abrir a boca dentro das igrejas”.

Informado pelas comunidades científica e humanista, o autor do vídeo expressou diversas insatisfações com a falta de respeito de líderes carismáticos como Malafaia à ciência e aos direitos humanos. Por tudo isso estar em questão, e por tantos se sentirem trazidos à justiça neste embate público, não é de se admirar que o vídeo tenha obtido tanto sucesso. Entre mensagens de agradecimento, Vieira publicou partes do comentário de um jovem nordestino homossexual que disse que pensava em se matar um mês antes, mas que ao ver o vídeo, "chorou de alegria".
“Que Malafaia e seus dólares saibam que encontrarão forte e embasada resistência intelectual para contrapor absurdos”, arremata Vieira.

9 comentários:

Jeferson Arenzon disse...

Uma análise interessante:

http://ateiadebomhumor.ligahumanista.org/2013/02/a-cortina-de-fumaca-de-silas-malafaia.html

rmm2989 disse...

Para complementar, a manifestação do Conselho Federal de Psicologia sobre a entrevista:

http://site.cfp.org.br/cfp-se-posiciona-contrariamente-declaracoes-do-pastor-silas-malafaia/

Chico disse...

Eu adorei ver o Silas levar uma surra do Eli, nesse passo importante que pode servir de inspiração para que a comunidade acadêmica saia do armário e comece a se assumir como o que tem que ser: porta voz da razão e opositora do medievalismo cultural.

Entretanto, meu otimismo logo deu lugar a uma visão que me pareceu mais realista. O Silas conseguiu o que queria: visibilidade. Ninguém deveria promover e exibir uma entrevista com o boçal. É lamentável que a mídia não tenha a orientação de dar voz aos bons em vez dos maus. E o posicionamento da comunidade científica teria que ser muito mais pleno e unânime. Não é suficiente para reverter as mentes pequenas dos homofóbicos, que buscam na fé e no grupo a validação das suas ideias incivilizadas. O homofóbico religioso não pode ser dissuadido porque tem certeza absoluta de que é bondoso, de que tem uma causa justa. São justamente os que têm total certeza da sua justeza os que têm maior capacidade de praticar o mal. Praticam o mal sem o ônus do fardo na consciência, porque a creem que a religiosidade lhes garante incondicionalmente as virtudes humanas. Seus opositores serão os hediondos cujas palavras não tocarão seus ouvidos, menos ainda seus cérebros e jamais o coração. Esse fenômeno não é exclusivo das religiões, claro. Também ocorreu no nazismo, no marxismo, entre outros. Quando se crê profundamente estar fazendo o bem pela sociedade, não há limite para a crueldade.

Não creio nem que as refutações dos devaneios do Silas tenham qualquer efeito positivo, sobretudo neste caso da influência genética na orientação sexual. Enquanto não se pode, salvo raras exceções, reorientar um homofóbico convicto, a cooptação de novos homofóbicos pelo pastor pode ainda ter sido facilitada, porque ficou subentendido para muitos que o reconhecimento da homossexualidade como orientação respeitável está condicionado à sua (questionável para os leigos) naturalidade na óptica materialista (genética). O ponto tem que ser outro: os gays existem, são seres humanos aspirantes à felicidade e ao respeito, pagam impostos devem ter proteção igualitária do Estado independentemente do motivo de serem gays (escolha, determinação natural ou influência). Os justos estão caindo numa armadilha. Por acaso achei esse texto (http://carlosorsi.blogspot.com.br/2013/02/nao-e-mas-deveria-ser.html) que desenvolve melhor essa arapuca armada.

Marco Idiart disse...

A questão se devemos ou não responder uma provocação é não trivial.

O sr. Milas Salafaia, como foi dito em algum lugar, é um cara que busca a notoriedade e tem um projeto de longo prazo para esta notoriedade.
No entanto, ele está longe de ser um "wannabe". Ele já tem um grau de visibilidade tal que faz sentido atacá-lo publicamente. Logo isto deve ser feito.
Calar neste momento seria mais nefasto.

Jorge Quillfeldt disse...

Excelente comentário, Chico! Ia mesmo escrever algo nesta linha, mas conseguiste ser sintético e certeiro,
duas coisas que raramente consigo ser. Trata-se do velho dilema de conseguir "enfrentar" o monstro sem "dar corda" ao mesmo. Nietzche, que tinha traquejo neste tipo de polêmica, era cristalino: "Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também um monstro." (ATENÇÃO: não que o Eli ou nossas humildes bravatas cheguem a este nível, mas no avançar da carruagem, tais situações podem aparecer, pois sempre pode aparecer um afoito disposto a promover a repressão ou mesmo a proibição de cultos). É difícil saber onde acaba a vantagem estratégica e começa a pisada na bola, e cada situação é diferente.

Mas o pior, e que Orsi desenvolve pouco, é que as afirmações da ciência devem permanecer, por sua própria natureza epistemológica, sempre questionáveis, sempre sustentáveis... "até prova em contrário": é a refutabilidade popperiana levada às últimas consequências, mesmo que já talvez arrastando-se à borda do abismo saganiano no qual "proposições extraordinárias" são aceitáveis, porém "exigem demonstrações extraordinárias". Isso dá munição para a retórica oposta, coisa que o Silas sabe usar como um mestre. Usar a ciência para advogar contra questões que comportam outro tipo de argumentação, mais de natureza lógico-ética que factual, é sempre um risco, e o feitiço pode virar contra o feiticeiro...

Melhor evitá-las, Por isso estou de acordo com Chico, Orsi e Katrina Voss: "Homossexualidade Não É Uma Escolha, Mas Deveria Ser". E pode também ser, por que não?

No fundo, esta é a mesma discussão que já tivemos aqui anteriormente aqui sobre as falhas do ataque "naturalista" (ou cientificista") dos neoateus às crenças teístas: é uma abordagem intrinsecamente frágil e peca de certa ingenuidade estratégica, vide o estrago mal-absorvido causado por Plantinga.

Enfim, persevera o mais que humano dilema nietzschiano, afinal, nolens volens , "as convicções são cárceres."

Chico disse...

Sobre a colocação do Marco Idiart, não quis advogar pelo silêncio dos cientistas (nem de ninguém) ante esse pastor-demônio. Acho que o Eli fez algo bom ao refutar, com um parecer científico honesto, a pseudo-ciência fascista do pastor. O vídeo do Eli é ótimo pelo que se propõe objetivamente a fazer: prover informação de qualidade e fácil entendimento sobre a correlação entre genótipo e homossexualidade em substituição a uma desinformação mal intencionada.

Só questiono mesmo o valor do vídeo e de todo o viés científico na guerra contra a intolerância, na qual a subjetividade das interpretações parciais pelas cabeças e corações duros nos puxa o tapete sob os pés. Não pode haver luta de igual para igual num campo onde apenas um lado carrega o "fardo" da honestidade intelectual.

Meu sentimento é de desesperança e tristeza, porque tenho muita vontade de ver meu país verdadeiramente civilizado (e então finalmente com orgulho) em vez de influenciado tão facilmente por pessoas tão más.

Minha desesperança vem da constatação de que só o tempo nos curará (quanto tempo?). Outros grandes poderes, como a mídia de massa, têm interesses políticos e de mercado que são incompatíveis com o apoio a um segmento numericamente pouco expressivo, por mais que este precise ou mereça. E o poder estatal tem sido omisso, quase pelos mesmos motivos que a grande mídia. A presidente, com seus inabaláveis oitenta porcento de aprovação, teria respaldo para correr o risco político de tocar no assunto em um de seus pronunciamentos. É uma tema mais importante do que a maioria pensa, porque não é auto-contido. Se associa ao laicismo, aos direitos humanos, à democracia verdadeira (não uma ditadura da maioria) e à solidariedade verdadeira, cujo sintoma é a defesa de direitos de outrem que não se convertem diretamente em benefício dos que são "normais" - por isso a batalha pelos direitos dos gays é muito mais difícil que a do divórcio e a do aborto.

Na falta de "heróis", estatais ou privados, e de meios claros de agilizar o progresso, só nos sobra a cura do tempo. Espero ver o dia em que os homofóbicos tenham vergonha do que são, como hoje até os racistas têm vergonha de serem racistas. Paciência!

rmm2989 disse...

Manifesto da Sociedade Brasileira de Genética sobre bases genéticas da orientação sexual

http://sbg.org.br/2013/03/manifesto-da-sociedade-brasileira-de-genetica-sobre-bases-geneticas-da-orientacao-sexual/

Legislação para Concursos disse...

Bom dia,

O vídeo é eficiente naquilo que se propõe: refutar a argumentação falaciosa do Pastor Silas Malafaia a respeito da homossexualidade. No entanto, chamo a atenção para alguns pontos em relação ao uso da ciência.
Trabalhei por um tempo na Revista Científica de Enfermagem de uma respeitada Universidade. Lia inúmeros artigos diariamente, pois era o responsável por sua formatação dentro das regras Vancouver. Pude perceber que grande parte das chamadas produções científicas não eram pautadas na própria ciência. Frases como "O que pensam as mulheres grávidas acerca do parto humanizado" eram respondidas com base em pesquisas extremamente frágeis, notoriamente para justificar que houve pesquisa. Muitos desses artigos eram reprovados no Conselho Editorial - composto de uma pessoa - justamente pela pesquisa rasa que fora realizada. Muitos poderiam argumentar que o correto seria realmente reprová-los, concordo. No entanto, muitas desses artigos já haviam sido publicados em outras Revistas Científicas! Intrigado, propus-me a investigar o porquê. Nem foi preciso ir longe, a resposta estava nas minhas mãos, literalmente: acontecia o mesmo na minha Revista! Por um simples motivo: o aclamado jeitinho brasileiro! Artigos de QI maior eram publicados e, de QI menor, preteridos. Diversas vezes deparei-me com a seguinte determinação do Conselho Editorial: "retire o artigo X e coloque o artigo da Diretora da Faculdade, pois ela precisa atingir sua cota de produção científica". Ou "coloque o nome do Professor X, pois precisa justificar a concessão da bolsa y". Enfim, depois de verificar os bastidores dessa Revista Científica, fiquei extremamente entristecido com o tratamento que era dispensado à ciência. No entanto, essa tristeza é contida pela esperança que me deparei apenas com fatos isolados. Enfim, proponho que sempre tenhamos olhares críticos, até mesmo com a ciência, ou com o que dizem ser ciência, sob pena de distanciarmo-nos da busca pela verdade. Afinal, aprendi que um artigo publicado não é, necessariamente, um artigo científico publicado.

Forte abraço a todos!

Marco Idiart disse...

Caro Legislação para Concurso

A conclusão é que a "Revista Científica de Enfermagem"é só científica no nome.