terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Popologia

Do you like this post?

Se a posição de estrelas e planetas extremamente longínquos, segundo a astrologia, pode descrever o futuro e a personalidade de uma pessoa, não seria bastante razoável que os traços, únicos e reflexos de nosso passado (genético, alimentar e fetichista), que carregamos no nosso traseiro também pudessem fazer o mesmo? Eu até diria que faz bastante sentido, uma vez que nosso futuro é altamente correlacionado com nosso passado. Mas a "arte" de ler o traseiro dos outros (o auto-diagnóstico só é aconselhável para pessoas bem resolvidas), inventada recentemente, é praticada desde o início da humanidade, mas com outras intenções. Voltando à "arte" da bundologia (rumpology), ela pode ser feita por inspeção visual, toque ou pela impressão deixada (em papel, não em você!).


A mais proeminente praticante da nadegologia é (e vocês já poderiam ter adivinhado somente ao olhar a foto ao lado) a mãe de Sylvester Stallone, Jacqueline.Entre suas habilidades está prever o resultado das eleições presidenciais, ou os vencedores do Oscar, analisando as nádegas de seus dois cachorros. Fico imaginando por onde andará o cachorro em cujo traseiro está codificada a cura para o câncer. Mas esta é uma boa notícia para os defensores dos animais: devemos todos cuidar de animais abandonados, nunca se sabe o que pode estar escondido em seus posteriores.

Jacquie Stallone alega que há um mapeamento entre cada hemisfério do cérebro e cada uma das nádegas. Imagem agora o corpo caloso. Já segundo o Dr. John McLachlan, há um mapeamento do corpo inteiro. O link para seu artigo original está aqui. Na verdade, McLachlan fez, na medicina, o que Alan Sokal fez nas ciências humanas há alguns anos.

A fraude perpetrada por Sokal, descrita e explicada no livro "Imposturas Intelectuais" em conjunto com Jean Bricmont, consistiu em publicar um artigo falsamente erudito e repleto de nonsense e erros. O mesmo foi publicado e debatido, mas ninguém percebeu o engôdo, até que o próprio Sokal revelou os detalhes e sua motivação. Até hoje, é considerado uma das grandes críticas ao pós-modernismo (ou POMO), seu estilo rebuscado e vazio, suas absurdas analogias científicas e a concepção equivocada de que a ciência é uma construção social e a validade de seus resultados relativizadas à sociedade que os pariu. Mas os pomos que nos interessam aqui não são esses.

No mesmo espírito de Sokal, McLachlan submeteu um resumo a uma conferência de medicina alternativa cheia de erros metodológicos, factuais e conceituais. Assim como no artigo de Sokal, uma leitura minimamente crítica teria se não detectado a fraude, pelo menos ligados alguns sinais de alerta. O que é preocupante, portanto, é exatamente esta falta de pensamento crítico nesse meio. Nosso senso crítico funciona como um sistema imunológico, testando e abandonando ideias que não servem. Quando esta barreira está abalada, estamos  sujeitos a um ataque de ideias oportunistas, as quais sempre vêm em grupos, que se instalam e criam seus próprios sistemas de defesa. Assim, quando uma nova terapia é inventada, a falsa crença de "mal não faz" arrebanha sempre um fiel grupo de seguidores, até naqueles casos onde a prática não faz o menor sentido, como é o caso da nadegologia. Mas há que se aventar a hipótese de que a coisa tenha sido criada por um espertinho que depois perdeu o controle...



PS: alguém deveria traduzir o verbete na wikipedia para o português!

3 comentários:

Chico disse...

Um artigo intitulado 'Homeopatia à Luz da Física Quântica - Uma Justificativa Teórica' seria publicado em qualquer conferência ou revista de homeopatia.

Um dia ainda vou tentar publicar 'Um modelo físico-computacional das correntes migratórias de almas no paradigma espírita'. Não deve ser difícil enganar a comunidade espírita, ávida por um suporte científico, mesmo que não tenham a menor capacidade de compreendê-lo e criticá-lo. A maioria já acha que a Física Quântica confirma o espiritismo (como vocês já disseram, a Física Quântica 'confirma' qualquer coisa).

Renato disse...

E desde quando cachorros tem nádegas?
Hehehe

Giuliano disse...

Ah, Chico, me deixa roubar esta tua ideia?